CACOAL PANDEMIA

CACOAL: A MORTE PEDE SEU VOTO

POR LÚCIO LACERDA

29/03/2021 08h18Atualizado há 6 meses
Por: REDAÇÃO

Tudo é vaidade, dizia o pregador, e nada há de novo debaixo do sol, registra-se no livro de Eclesiastes, de uns 3 mil anos atrás.

Quanto mais o povo pede honestidade mais recebe picaretagem. Se cada povo tem o governo que merece eu chego a duvidar desse impulso moralizador do povão.

Aliás, duas coisas muito me impressionam no povão. Uma é a facilidade com que abre mão de suas liberdades públicas em nome de qualquer segurança, e a outra é a imensa capacidade de eleger gente desonesta enquanto esbraveja moralidade.

Talvez, pensei, tenham se dado direitos demais a essa gente antes da hora. Se é que tem hora certa para conceder direitos.

Como fazem falta políticos honestos em momentos de crise como esse que estamos vivendo.

Veja, que a palavra honestidade não tem um sentido restrito. Honesto não é apenas quem se abstém de roubar dinheiro público. A palavra honestidade açambarca um grandioso conjunto de patrimônio moral que vai muito além de não se dedicar a ladroagem.

Ser honesto é ser sincero, verdadeiro, responsável, precavido, cauteloso, prudente.

Avalie os políticos em seu entorno. Quantos são assim?

Talvez porque nós também não sejamos assim. Tal eleitor, tal eleito.

Nesta semana eu tomei conhecimento de pelo menos 3 pessoas que deram um jeito de furar a fila de vacinas em Cacoal. Um dos casos me chamou a atenção em particular.

Uma advogada, bem de vida segundo disseram, que tinha formação em psicologia, mas jamais havia clinicado, teria ido até a secretaria de saúde do município com o fim de cadastrar uma clínica de psicologia para obter o direito de se vacinar como profissional de saúde.

Como a clínica não existe ela forneceu o endereço de seu escritório de advocacia como sendo o local de seus atendimentos terapêuticos, e também apresentou o seu marido, que é servidor público estadual, como funcionário da clínica, e portanto, sujeito a exposição ao Coronavirus, motivo pelo qual ambos foram vacinados.

Caso de polícia. Estão investigando.

Também chegou ao meu conhecimento que um membro da imprensa local foi acometido de Covid 19, e em um momento em que as vagas de UTI eram disputadas em filas de dezenas de pessoas, a ele foi disponibilizado um leito de UTI sem maiores complicações.

Sinceramente não sei exatamente o meio pelo qual ele obteve essa primazia em relação a tantas outras pessoas, mas é certo que quanto mais pobre e anônimo alguém for, maior a possibilidade de alguém tomar seu lugar nessa fila desesperada.

Falando em desespero, Cacoal é o município do interior do Estado onde a Covid 19 mais avança. O governo do Estado esteve aqui no sábado ultimo realizando testes nas pessoas, e de pouco mais de 800 pessoas testadas, 114 foram positivadas para Covid 19.

A situação é tão alarmante que comenta-se que o prefeito teria impedido o lançamento dos dados de contaminação referente a 500 novos contaminados, ao argumento de que isso iria gerar um apavoramento da população.

Eu não acredito que o prefeito esteja preocupado com a intranquilidade da população, mas com os efeitos dessa intranquilidade sobre a sua popularidade.

Em nome e em defesa dessa popularidade, correligionários do prefeito de Cacoal foram as redes sociais na tarde do ultimo domingo, incluindo um vereador, a reclamar do governador de Rondônia, porque ele mandou servidores da secretaria de estado da saúde realizar testes em Cacoal.  O motivo da crítica? É que isso ofenderia de alguma forma a popularidade do prefeito, que desconfia-se, estaria escondendo dados da doença em período de pandemia.

O vereador envolvido no risca faca com o estado, chegou a insinuar que a prefeitura iria ( em retaliação?) retirar os servidores municipais cedidos aos hospitais estaduais no município, fato que instaurou uma enorme discussão nos grupos de WhatsApp.

Dos municípios de grande porte em Rondônia, Cacoal é o único que não incrementou a oferta de leitos de UTI, porque o prefeito foi até a justiça para mudar a destinação da verba estadual que seria aplicada na ampliação de leitos de UTIs. Aqui, quem depender de UTI morre, se não tiver o amigo certo, no lugar certo.

Tá morrendo tanta gente em Cacoal que até saco de óbito tá faltando e foi preciso intervenção do MP para que a administração providenciasse a aquisição do lacra defunto.

Pra piorar, o prefeito editou um decreto municipal em que autoriza o funcionamento de templos e igrejas com publico de 50% da lotação, o que significa que em um templo que comporte 1000 pessoas, 500 podem se reunir.

Por isso, as maiores aglomerações desse fim de semana aconteceram em igrejas. Semana que vem aparecem os resultados, e no próximo fim de semana mais aglomerações ao pretexto do santo dízimo e da bendita oferta.

A situação por aqui é tão desoladora que o obituário das pessoas é feito online, nas redes sociais e a cada hora postam a foto de um novo rosto feliz, inclusive muitos jovens, que partem desta vida vítimas da Covid 19. 

Que tempos são esses?

Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;

 

As lives do prefeito dão apenas notícias boas e a depender de suas manifestações públicas a conclusão a que se chega é a de que ele é muito competente e que a pandemia quase não provoca danos por aqui.

Sei lá. Deixa ele. Quem viver verá.  E quem não sobreviver também.