VELHA INFÂNCIA

O MENINO QUE QUER SER HOMEM E O HOMEM QUE QUER SER MENINO

POR LÚCIO LACERDA

06/04/2021 10h34Atualizado há 6 meses
Por: REDAÇÃO

O pasto do outro lado é sempre mais verdinho e gostoso, não cansa de cobiçar o velho burro descontente. Pelo menos até que ele mesmo atravesse a cerca e veja por si  que nem era tão verdejante e nem tão gostoso assim aquela ração.

"Ahh, se os ricos fossem tão ricos quanto os pobres pensam", diria Ralph Waldo Emerson.

Nós, tal e qual burros teimosos, sempre reputamos como melhor lugar, àquele em que não estamos. Eu por exemplo, quando era criança, achava que a vida perfeita era no mato, e acho que era porque eu era uma criança que vivia no meio de prédios, ruas asfaltadas e da fumaça que saía das chaminés gigantes  das indústrias do ABC.

Uma vez a cada dois anos, se não me falha memória, íamos, eu e minha família,  revisitar nossas origens no sertão do Vale do Mucuri, na casa de Madrinha Laurita, minha avó, que não sei porque razão chamávamos de !madrinha”, e do Padrinho Orlindo, na roça, onde não havia energia elétrica, água encanada, ou mesmo vaso de porcelana no banheiro.

Pra chegar lá era um ônibus da Itapemirim, uma carona em carroceria de caminhão de leite, sentados em meio aos tambores de soro, e uns 3 quilômetros andando a pé, que era a distância entre a rodagem e a modesta casa de adobe de meus avós.

Lá não tinha concreto, prédios ou trens, mas tinha mato e plantas de tudo que é cheiro, fumaça de forno de pedra de lajedo, biscoitos de goma e bolos de puba assados em latas, tanto  de sardinha quanto de goiabada ou marrom glacê.

Primos, tias, desconhecidos agregados à família, por adoção ou razões de lavoura, e um monte de meninos "malinos" com quem desfrutar de todas brincadeiras disponíveis ali, naquele paraíso que a pobreza de minha origem me oferecia.

Tomar banho de rio e pescar de peneira era uma das coisas que eu mais gostava de fazer, mas jogar espigas de milho ou raízes de mandioca sobre as brasas do fogão de lenha não era ruim, especialmente se estivesse com fome.

Também adorava andar de cavalo, mas tive que aprender arriar e roubar um, temporariamente, já que não me deixavam montar nos equinos dali, que diziam serem brabos de arremessar o montador. O objeto do furto de uso foi o “alvim”, um cavalo branco de meu avô. Era de meia idade, mas tinha um passo suave, e uma cavalgada ritmada e veloz, e não machucava os rins.

Nesse dia eu corri chão, abri cancelas, fui à casa do velho Bandin, ancião para os filhos dos quais minha mãe havia dado aulas em loco em sua fazenda, e que ficava a mais de légua da casa de meus avós. Desci do cavalo e o amarrei ao mourão de colchete de arame da propriedade, me identifiquei, tomei café, comi biscoitos e ouvi histórias sobre  minha mãe jovem.

Algumas horas depois,  já que estava ali, decidi ir a casa de meu tio “Dé”, irmão de meu pai, que morava ali perto, mais uma légua adiante, e como gente grande, me despedi do povo do “Bandin” e me fui a casa de “Ti Dé”.

Cortei o escorregadio lajedo do córrego novo montado no Alvim, que ali quis beber água, e segui por uma dezena de cancelas que o próprio cavalo me ajudava a abrir, e fechar e segui para meu destino que era a casa do mais velho de meus tios.

Chegando lá, ao me identificar, todos pareciam mais preocupados em saber de meus acompanhantes ausentes que de minha pessoa, razão pela qual apenas fiz umas perguntas sobre o tanque de carpas, comi umas carambolas e me fui embora.

Era fim de tarde, três cancelas depois de minha retirada, avistei um poeirão  vermelho no meio da estrada de chão, e muitos animais em minha direção. Fiquei preocupado se podiam aquelas pessoas serem hostis, pois vinham muito rápido e a cena parecia ser compatível com violência, pois era ruidosa e perturbadora.

Logo começaram a se posicionar com seus animais em torno de mim, quando percebi que eram meus familiares, incluindo minha mãe, mais tios, primos, tias e até o vizinho mais próximo que estavam em diligência a minha procura.

Eu fiquei preocupado com o furto de uso do cavalo, mas eles pareciam mesmo estar preocupados e impressionados com o fato de eu ter feito aquilo sozinho. Não furtar o cavalo, mas arria-lo, com freios, rédea, estribo, monta-lo, e percorrer tanto chão, ainda mais abrindo cancelas de fecho complicado.

Mamãe ameaçou dar-me uma surra de vara de fedegoso se eu não dissesse quem era meu cúmplice mais velho que teria me ajudado a realizar tal façanha, ao que eu, mesmo temendo o côro que estava prestes a tomar, respondi:

“Mamãe, eu já tenho 8 anos e sei me virar”.

Todos riram e eu fui dormir contrariado.

Naquela época eu queria ser adulto, e agora, quase 4 décadas depois,   quero resistir a velhice, porque o capim do outro lado da cerca é sempre mais verdinho. E isso vale para a cerca da propriedade,   andar do prédio e para os muros temporais que nos confinam no presente momento.

Bom mesmo é ter consciência de que éramos felizes, e sabíamos disso.