você vê o azul?

Os mistérios da cor azul

Por Lúcio Lacerda

23/04/2021 01h06Atualizado há 5 meses
Por: REDAÇÃO

Hoje eu estou pensando na cor azul. Obcecado, com hiperfoco, como convém a um autista.

Pensei, pensei, pensei. E até pesquisei e descobri que essa cor linda não existia na antiguidade.

É sério. Nós aprendemos a ver o azul, que antes não existia. Não existia porque não sabíamos conceitua-lo, e o bicho homem, como é cediço, só pode conhecer o que estiver preparado para conceituar.

As línguas antigas não tem uma palavra para designar o azul. O grego, o chinês, japonês, hebraico e aramaico, em suas formas arcaicas, não tinham uma palavra para definir a cor azul.

Porque não tinham? Será que eles não viam o azul?

A epopeia a “Odisseia” de Homero, descreve o mar como cor de vinho escuro.

Não há menção nem mesmo nas grandes obras religiosas da antiguidade a cor azul. Tem amarelo, vermelho, preto, branco, mas não azul, nem a sua associação ao céu ou ao mar.

Muitos linguistas e estudiosos se debruçaram sobre este tema e compreenderam que é intuitivo que os homens reconheçam cores por associação com coisas do dia a dia. O vermelho por exemplo é a cor do vinho e do sangue. O preto e o branco, escuridão e luz.

Se a gente pensar bem o azul é algo raro na natureza, poucas coisas naturais são azuis. Quase não há animais azuis, ou frutas, tubérculos ou mesmo insetos azuis. Pessoas com olhos azuis são raríssimas e dizem, todas descendentes de um único ancestral.

Um pesquisador chamado Guy Deutscher, intrigado com a questão da omissão do azul na história antiga, decidiu fazer um experimento e usou sua própria filha bebê como cobaia.

Ele tomou o cuidado de nunca dizer a ela qual era a cor do céu e nem fazer qualquer descrição a esse respeito. Um belo dia, enquanto estavam em um passeio no parque, e a menina olhava pra cima, e ele lhe perguntou que cor ela via quando olhava pra cima. Bingo. Ela não tinha ideia. Primeiro disse que não via cor alguma, depois branco, e mais tarde azul.

Ela chegou ao azul porque tinha outras fontes de experiência com azul. Talvez um brinquedo, uma ilustração ou uma roupa. Mas se fosse uma criança da antiguidade certamente não chegaria ao azul para descrever o céu.

Pra mim o azul é um mistério, da antiguidade e do futuro.

Assisti a primeira temporada da série Templários no NetFlix cujo último e triste episódio termina com a amada do mocinho morrendo e expirando com a seguinte frase: “ Você vê o azul?”

Fiquei louco de obsessão porque eu sou louco por coisas que não tem sentido na superfície.

Fui correndo consultar alguns de meus mestres sobre o que eles haviam dito alguma vez sobre o azul e fiquei ainda mais intrigado.

Meu idolatrado João Guimarães Rosa me perguntou:

 

“ Para onde nos atrai o azul?”

 

Perguntei a Clarice Lispector e ela me disse:

“Para vermos o azul, olhamos para o céu. A Terra é azul para quem a olha do céu. Azul será uma cor em si, ou uma questão de distância? Ou uma questão de grande nostalgia? O inalcançável é sempre azul.“

 

E ai Leminsky?

 

“Amar é um elo entre o azul e o amarelo”

 

Outra vez Guimarães Rosa:

 

“O coqueiro coqueirando as manobras do vermelho no branqueado do azul

 

Eureka. O azul de tantas poesias, de tantas melancolias, sonhos de doces infâncias de algodão e anil, é na verdade um sinal de reconciliação com a natureza.

Não existe mesmo um azul no céu que é só a escuridão do espaço sideral ligeiramente atenuada, nas proximidades, pela luz do sol.

O azul do céu é o resultado do encontro da externa escuridão do espaço com os raios de luz do sol gerando uma percepção de cor aos olhos humanos.

Tampouco há azul no mar, mas reflexo do azul imaginativo que vemos no céu.

Leminski tinha razão o amor da criação é um elo entre a escuridão feita azul pela generosidade do sol que nos aquece.

Clarice também tinha razão, o azul é a cor da inalcançável redenção humana diante da criação.

Guimarães fez a pergunta certa.

Para onde nos atrai o azul?

E ainda me descreve o crepúsculo como manobra do vermelho no branqueado azul.

Para onde mais nos atrai o azul senão para o inalcançável proposito de desvelar a divina essência da criação?

Os raios do sol rasgando o breu do espaço nos transmitem um recado em forma de azul, que nos informa que nada é tão escuro que não possa ser embelezado pela divina e generosa providência da luz.

A natureza não exige que olhemos diretamente para a luz. Queimaríamos os olhos. Mas nos oferece um azul da reconciliação da luz com as trevas que é o máximo que nesta forma podemos alcançar da resplandecência de Deus.