EVOLUÇÃO

O MEDO, AS ESCOLHAS DIFÍCEIS E A EVOLUÇÃO HUMANA

Por Lúcio Lacerda

03/05/2021 05h03Atualizado há 5 meses
Por: REDAÇÃO
Júlio Cesar atravessando o rio Rubicão
Júlio Cesar atravessando o rio Rubicão

Há coisas inacreditáveis acontecendo todos os dias, e se a pessoa não insistir em lançar olhares acostumados ao mundo, certamente as verá.

As paisagens nunca são as mesmas paisagens, porque as paisagens são recortes da imaginação humana, e se a paisagem que contemplamos for a mesma será porque a imaginação humana parou de funcionar e tornou-se lembrança.

Lembrança é o contrário de imaginação. Lembrança é uma moldura pronta, imutável, concretizada e perene, como uma fotografia. Imaginação é múltiplas possibilidades, como as poses que eu planejo para as fotos que ainda vou tirar.

Há quem diga que a imaginação é superior ao intelecto.

Quem imagina segue adiante, evolui, quem apenas lembra permanece onde está. A lembrança condiciona, a imaginação flexibiliza.

Um cachorro que uma vez fora picado de cobra, pode vir a temer uma linguiça, se detido pelo medo da lembrança, não tiver a coragem de dar a primeira mordida.

Todo medo e condicionamento advém da lembrança, e das piores lembranças, que geram certos marcadores, que de forma automática adestram nossas reações e decisões.

É dizer que quanto mais eu me detenho na vida em razão das lembranças que me condicionam, menos eu aprendo e menor é o meu acervo de experiência evolutiva, já que a todo momento eu decido por ficar onde estou, por medo do que possa ocorrer.

As recordações passadas são também importantes porque ancoram a minha personalidade e informam um conjunto de atributos e experiências que me distinguem e individualizam no mundo, mas elas não servem para determinar todo o futuro, até porque seria muito arrogancia pensar que minhas recordações de experiências passadas fossem tão amplas, que pudessem servir para orientar toda e qualquer decisão relacionada ao futuro.

Há apenas um exercício infalível para nos tirar da involutiva zona de conforto, que é a  prática diária do enfrentamento do medo e da administração das dificuldades.

São Paulo e Santo Inácio de Loyola chamariam a isso de Exercício Espiritual.

Se o ser humano decidir todos os dias fazer algo  que tenha medo de fazer, pouco a pouco descobrirá que o medo é só uma opinião fatal sobre o futuro, e que futuro é destino, e não fatalidade.

Se o ser humano decidir sempre que possível,  fazer o que lhe for mais difícil fazer, compreenderá que ao decidir pelo mais desconfortável estará se adaptando a ordem natural das coisas, que por premissa é aparentemente incerta, mutável e dificultosa.

A trilha moral da natureza é a evolução pela dificuldade, como sentenciou o Deus judaico ao expulsar os primeiros habitantes do paraíso:

 

“A terra produzirá espinhos e ervas daninhas, e tu terás de comer das plantas do campo. Com o suor do teu rosto comerás o teu pão, até que voltes ao solo, pois da terra foste formado; porque tu és pó e ao pó da terra retornarás! ”

 

Não nos esqueçamos das plantas do campo e do suor, que alguma vez deve verter, mesmo dos rostos mais preguiçosos.

Quão difícil foi para Júlio Cesar atravessar o Rubicão? Como teria sido a história se ele não tivesse atravessado?

O que seria de Roma, do cristianismo e da sociedade ocidental se Cesar não tivesse atravessado o rio Rubicão e enfrentado o Senado,  sagrando-se vencedor na conquista do poder total em Roma?

Esta decisão de Júlio Cesar, seguida da frase “Alea jacta est” ( “a sorte está lançada" ou "os dados estão lançados") é um excelente exemplo de fé nas múltiplas possibilidades que escolhas difíceis oferecem .

Pessoas com disposição para fazer escolhas difíceis é o que o povo mais anseia para compor os quadros da política e da administração pública. Todos queremos amigos que sejam capazes de tomar decisões difíceis em nosso favor. É a capacidade de suportar as dificuldades é que testa a amizade e a confiança.

Porque é difícil encontrar pessoas éticas?

Porque a ética é difícil e impõe escolhas difíceis que exigem esforços de todos os tipos.

Escolher fazer o que lhe parece mais difícil aumenta seu repertório ético  além de te colocar em contato com possibilidades que jamais teria se tivesse sempre optado pelo que é mais fácil.

Assumir erros, desculpar-se, dizer a verdade, responsabilizar-se pelas consequências dos atos que pratica e recusar vantagens injustas são coisas muito difíceis de se praticar, e por isso mesmo devem ser insistentemente exercitadas.

Se tiver medo, enfrente-o.  Se não souber o que fazer, faça o que lhe parecer mais difícil fazer.

 Fazer o mais difícil é, frequentemente,  fazer a coisa certa.