OPINIÃO

A OPINIÃO DAS MASSAS E O FIM DO MUNDO

Por Lúcio Lacerda

09/05/2021 13h14Atualizado há 1 mês
Por: REDAÇÃO

 Deviam parar com a demagogia sobre as massas. As massas são rudes, sem preparação, ignorantes, perniciosas em suas reivindicações e influências. Não precisam de lisonjas mas de instrução.

 

 

 

Todo poder emana do povo e é exercido por seus representantes eleitos pelo sufrágio universal.

A partir do momento em que o povo elege seu representante, pelo voto, a opinião individual do eleitor que nele votou, não tem mais importância, ao menos no sentido mais técnico do exercício do mandato.

E é no exercício do mandato que o homem público toma conhecimento dos dados e indicadores que devem orientar suas ações no curso da representação que foi legitimada pelo sufrágio universal.

O homem público é levantado no meio do povo para substituí-lo nas decisões mais cruciais da vida da república, sem que no entanto, exista o dever de consulta ou referendo aos eleitores quanto ao que delibera fazer nessa condição de detentor do poder político que emana do povo.

Daí que políticas públicas, de todos os tipos, são implementadas pela vontade técnica de quem detém o poder, que não se olvida, emana do povo.

Isso pressupõe que os representantes do povo sejam eleitos em razão de serem eles, os eleitos, os mais qualificados dentre os cidadãos no seio dos quais foram alçados a condição de líderes políticos, e que esse reconhecimento por si, já justifica a outorga do mandato que é exercido com amplos e autônomos poderes concedidos pelo voto.

Todavia, temos visto atualmente que, o eleitor tem tido dificuldade em receber de volta, o resultado do exercício do poder, que deles emana, e que é exercido por representantes.

Reclamam das leis, e de sua aplicação, dos direitos, que são muitos, das políticas públicas, que seriam desnecessárias, e até do devido processo legal há décadas reconhecido como inafastável requisito para a realização da justiça.

Esse descompasso entre o representado e o representante acontece, penso em princípio, porque a atividade de Estado se desenvolve de maneira muito mais rápida que a consciência popular sobre as coisas mais complexas.

As redes sociais tem iluminado certas cavernas sectárias antes impenetráveis por qualquer sondagem de opinião pública que buscasse saber sobre os segredos do coração da sociedade.

Hoje sabe-se que parte considerável das pessoas são contra cotas na universidade para grupos vulneráveis, programas de renda mínima e até contra a presunção de inocência e devido processo legal.

Na verdade, muitos são a favor do direito de a polícia matar pessoas supostamente suspeitas, desde que estejam elas na hora errada, no lugar errado, independente de processo, principalmente se tiverem a cor de pele errada.

Todas essas coisas, desde os programas sociais, as ações afirmativas e as garantias do devido processo legal, são construções teóricas que foram sendo assimiladas como políticas de Estado ao longo da história, de maneira salutar e consensual, muito embora, agora se saiba, que incorporadas a revelia de uma opinião pública alienada e desconhecedora das razões e fundamentos destas políticas.

Os políticos, no exercício do poder que emana do povo, através de seus mandatos, decidiram, sem que o povo soubesse o significado disso, que a democracia, a unidade nacional e a pluralidade de ideias são valores sociais indeclináveis.

Por terem feito isso sem que o povo soubesse, uma grande revolta emerge  das ruas, vindo à lume as opiniões que passaram a se expressar através das redes com o advento da universalização da internet, clamando por intervenção militar, pena de morte sem processo,  eliminação de grupos minoritários e interdição de debates sobre assuntos que tenham qualquer ressonância constrangedora no contexto religioso, como o sexo, as drogas, a laicidade do Estado ou a orientação sexual das pessoas.

Lembremos que, a postura de Estado face a estes assuntos, sempre foi resultado de opções políticas conscientes, baseadas em indicadores concretos, que ao que parece, nunca foram conhecidos ou aprovados por parte considerável da sociedade.

 Esta reflexão nos leva a conclusão de que o mundo melhor que os políticos buscaram construir desde a redemocratização do Brasil, não é reconhecido como um mundo melhor por parte expressiva da população, e a razão disso é que esta parte da população ignora o que é melhor, assim como as razões pelas quais uma coisa é melhor que outra.

 Por consequência deste aparente paradoxo, que consiste em existir um conflito entre o exercício do poder e a opinião de quem o concede, teremos que doravante, decidir entre três soluções:

 

1   1- Aderimos as vozes das ruas e retrocedemos, retornando a um estado evolutivo já superado, em homenagem aos retardatários que não assistiram a ampliação do rol de liberdades públicas e nem se importam com elas.

 

          2-         Insistimos que o pressuposto da representação é a capacidade e aptidão para a representação e passamos a ser mais diligentes para com a necessária educação para a cidadania, formando cidadãos conscientes desde os primeiros anos da educação básica, apresentando de fato, às pessoas, em que mundo elas vivem, desde a mais tenra idade.

 

3   3- Lançamos mão da tradicional demagogia a fingimos ouvir a voz dos incautos, sinalizando concordar com seus disparates, mas na verdade fazendo o que precisa ser feito, ainda que isso gere para o futuro novas legiões de alienados que não enxergam nem ouvem o trem da história passar.

A depender das massas voltamos ao regime militar, autocrático, que a exemplo das monarquias absolutistas, sempre terminam, pela muita concentração de poder, em tirania, segundo Platão.

Pensar não é coisa para as massas, dizem muitos, e, portanto, elas não precisam ser ouvidas, mas toda democracia termina em demagogia, dizia Platão.

O regime perfeito de governo, segundo Platão, seria a sinarquia, que é um governo de sábios filósofos que, abnegados e altamente introspectivos, decidiriam com sabedoria os destinos dos menos capazes.

Na hipótese de nos filiarmos a primeira solução haverá um movimento em que a propósito de satisfazer as vozes das massas, acabaremos por silencia-las no próximo passo, pois se para atende-las for necessário involuir da democracia para a ditadura, como desejam irrefletidamente, logo não poderão manifestar suas ideias de justiça e perfeição.

Se nos filiarmos a terceira solução, nos renderemos a conclusão de que a espécie é mesmo inviável, pois que sempre será necessário enganar o rebanho para que a vida seja minimamente organizada, e isso se opõe a todo ideal de busca do desenvolvimentos das potencialidades humanas, da igualdade e da dignidade da pessoa  humana.

Se nos filiarmos a segunda solução, penso eu, estaremos colocando a democracia na rota da sinarquia, pois reconhecendo que a capacidade de governar , ao contrário do sufrágio, não é universal, balizaremos a legitimidade e autonomia do mandato, ao menos em tese,  na capacidade dos representantes, e não na força pura e simples do voto, ratificando que cabe ao povo receber de volta, invariavelmente, o resultado do exercício do poder que endossou através do seu próprio voto.

As opiniões das massas, principalmente em tempos de internet universal e redes sociais, não raras vezes, são orientadas por teorias de conspiração, como por exemplo àquela que denuncia que  certos grupos de bilionários malvados estão a  engendrar um concerto maligno para destruir o mundo, sendo a democracia, as vacinas e os direitos humanos, instrumentos de realização deste plano satânico conta a humanidade.

Já eu intuo que, o que realmente pode acabar com o mundo, é influência que tem a opinião das massas sobre assuntos importantes que demandam mais reflexão que respostas rápidas.