OPINIÃO

MUNDO FAKE - A SOCIEDADE DA MENTIRA

Por Lúcio Lacerda

23/06/2021 13h26Atualizado há 4 dias
Por: REDAÇÃO
Pilatos interrogando a Jesus
Pilatos interrogando a Jesus

O que é a verdade? (Quid es veritas?)

Essa foi a pergunta feita por Pôncio Pilatos, governador da província romana da Judéia, ao Jesus sob sua custódia, sem que obtivesse resposta.

O Caibalion, texto de referência da chamada filosofia do hermetismo, afirma na descrição do princípio da polaridade, que toda verdade é meia verdade.

Não é de se espantar que, 2 mil anos atrás, a verdade tenha sido considerada indeterminada por Pilatos, a teor da pergunta que fez, e relativizada pelo Caibalion, cujas origens são atribuídas ao Egito Antigo, pois a autoridade da verdade científica só viria a ganhar contornos mais rígidos a partir do racionalismo do Século XVI, com seu apogeu expressado no pensamento de Rene Descartes.

No início do século XIX, sob a influência de John Stuart Mil e Auguste Comte é que a escola positivista veio a cravar a ideia de que uma verdade só é verdade, se for científica.

O racionalismo de Descartes, aperfeiçoado pela escola positivista, surgiu dos postulados iluministas, que pretendendo romper com obscurantismo teológico e metafísico, hegemônico da idade média, mostrou ao mundo uma terceira via  de desenvolvimento entre os desígnios divinos e a lei do mais forte..

A existência da humanidade então, com todos os seus fatos, se submetem a valores totalmente humanos, e não mais a teologia e a metafísica, daí que a verdade passa ter um caráter objetivo, e a ser um produto do método, e não mais de íntimas convicções ou de premissas teológicas e metafísicas.

Não se olvida que a verdade, para além de sua significação científica, tem outros contextos de emprego, especialmente no âmbito das subjetividades humanas.

“Nesta quadra, definir verdade é algo complexo, visto que é inerente à percepção e vivência de cada pessoa. O que pode ser verdade para uma comunidade, para outra, pode não fazer sentido. Trata-se de um sistema de valores que passa, necessariamente, pelo conjunto ético e moral da sociedade.

Para o filósofo Husserl uma verdade se dá através dos fenômenos que são observáveis, perceptíveis e sensíveis. Chama-se de fenomenologia. Para Sartre, uma verdade está na essência do indivíduo, sendo o resultado dos valores de uma sociedade.

Já para Foucault, uma verdade precisa ser livre, não podendo estar vinculada a uma institucionalização porque, desta forma, será manipulada, gerando constrangimentos e formas de comportamento. E para Nietzsche, a verdade simplesmente não existe.( Epistemologia – eEduca+Brasil)

Mas quando se fala em verdade científica, excluem-se todos os contextos de emprego que não estejam relacionados a sentença científica canonizada pelo crivo do método e promulgada pelo consenso científico.

Se a escola cética dizia que nós não podíamos sequer conhecer das coisas, os racionalistas concluíram que nós não podemos conhecer de todas as coisas, mas poderíamos conhecer de algumas, desde que se submetessem ao método.

Então a imposição do método como cadinho pelo qual as hipóteses e aferições são processadas, a fim de que sejam confirmadas ou refutadas, limitou e sistematizou a forma pela qual o homem pode tocar o universo, e sobre ele se pronunciar, subindo aos céus, degrau por degrau, sempre em harmônico consenso com os construtores da nova torre, que agora não é a de Babel, mas a própria Sulam Yaakov  ( Escada de Jacó) cujos pés repousam na terra e suas culminâncias nas maiores alturas do céu, por onde os anjos sobem e descem,  buscando e trazendo as altas mensagens de Deus para os homens.

Se para alguns o sistema cartesiano não é o único caminho, tampouco alguém indicou outro melhor, mas é fato que, desde que a ciência ganhou autoridade erga omines, onde quer que esteja vigente, não se tem queimado bruxas, torturado hereges e nem dizimado povos em santas guerras.

O amplo reconhecimento da verdade científica obtida por meio do método, ao longo da história, teve especial repercussão no trato da saúde humana, deixando para trás ocorrências como a devastadora “Peste Negra”, que acometeu a humanidade no século XIV.

“A propósito, naqueles anos de peste negra o renovado fervor religioso e o fanatismo floresceram com o despoletar da doença. Vários grupos, como judeus, frades, estrangeiros, mendigos, peregrinos, muçulmanos, leprosos, sodomitas e ciganos, foram alvos de perseguições e igualmente considerados culpados pela disseminação da doença e outros com doenças de pele como acne ou psoríase foram mortos em toda a Europa.

Como os curandeiros e os governos do século XIV não tinham quaisquer ferramentas para explicar ou parar a doença, os europeus voltaram-se para forças astrológicas, terremotos e envenenamento de poços pelos judeus como possíveis razões para surtos.  Muitos acreditavam que a epidemia era um castigo de Deus pelos seus pecados, e poderiam ser aliviados com o perdão de Deus. ( wikipedia)”

Na pandemia do Coronavírus o primeiro impulso da humanidade foi o de querer escolher um povo como responsável, tal e qual ocorreu nos tempos da peste negra.

No Brasil, os radicais de direita já arranjaram 2 culpados, quais sejam, os chineses e os esquerdistas, que também seriam comunistas.

Quase 700 anos depois da mais devastadora pandemia que o mundo já viveu, graças a autoridade da verdade científica, a humanidade é capaz de compreender as causas de uma doença, e enfrenta-la, mitigando-a, tratando-a e erradicando-a.

O enfrentamento da pandemia da Covid 19, em certa medida, nos coloca na Europa medieval, no epicentro da peste negra, quando as redes sociais dão voz a pessoas que atribuem o alastramento do vírus a uma guerra biológica maquinada pelos chineses, ou a um castigo de Deus em punição a realização do Carnaval Brasileiro que dramatizou sobre um carro alegórico, um diabo vermelho subjugando a figura de Jesus Cristo.

Não menos medieval é a insistente e irracional defesa de medicamentos comprovadamente ineficazes para o tratamento da doença, a recusa de vacinas, e todas as teorias de conspiração que informam que as máscaras fazem mal a saúde.

As teorias de conspiração não são um fenômeno moderno, são na verdade, a cultura medieval tomando o século XXI de assalto, irradiando-se no imaginário de parte significativa da população, como mundo rústico ideal.

Opino que o desejo pelo mundo rústico decorre de uma intransponível barreira de linguagem e compreensão de grande parte da população que, excluída de certos processos educacionais, prefere o que é mais intuitivo e rudimentar, e isso explicaria também a escolha do nosso atual presidente, pois ele, conquanto insólito como administrador, tem um sistema de conclusões binário que produz ideias simples de fácil digestão.

A negação da ciência de outro lado, deve ser consequencia de uma completa alienação cultural e tecnológica que sem sombra de dúvidas decorre de uma gigantesca falha educacional brasileira que só foi posta a lume após o amplo acesso das camadas menos instruídas da sociedade a internet e as redes sociais, posto que antes, não sabíamos nem o que nossos vizinhos pensavam sobre um determinado assunto.

A internet tornou pública a mais privada experiência, e também possibilitou que a pseudo  ciência estabelecesse concorrência com a ciência verdadeira.

Foi compreendido pelos pseudo cientistas que a validade de uma afirmação, perante a opinião pública, dependia mais da autoridade de quem a professa, que do método que a antecede, e daí foram se arregimentando médicos para validar axiomas psedo científicos na área de medicina, psicólogos para defesa de proposições na área da psicologia (lembram da cura gay?), e assim como nas diversas áreas do conhecimento humano.

Esse exército de pseudo cientistas se apresentam dioturnamente nas redes sociais defendendo as conclusões mais estapafúrdias que nem a idade média foi capaz de formular, não por falta de imaginação, mas por medo do clero.

Nessa anarquia científica, todos que tenham um diploma de bacharel debaixo do braço podem se  auto proclamar cientistas e fazer voos solos em sentido contrário ao consenso da comunidade científica, acusando as instâncias oficiais da ciência de sonegar a verdade ao povo.

No meio de tanta desinformação e com a dificuldade de o cidadão médio distinguir entre ciência e pseudo ciência é preciso que os governos encontrem uma maneira de oferecer a sociedade os meios para compreensão dos fatos, não apenas através de um sistema de educação muito mais eficiente, como também através de uma melhor sistematização da hierarquia científica, através de agência ou órgão vocacionado a difusão de informações idôneas sobre ciência, esclarecendo sobre a produção científica em vários segmentos, e criando padronizações, tanto quanto possível, para que uma pessoa possa postular a defesa pública de qualquer enunciado cuja adesão possa causar danos individuais ou coletivos a sociedade. Um órgão que estivesse para a ciência, em sentido amplo,   como a  ABNT está para as normas técnicas.  Uma agência de checagem de Fake Cience.

Claro que não estou concluindo pela fundação do Ministério da Verdade, como aquele  presente na obra de Orwel, visto que o propósito aqui é dar ao povo os mecanismos para se chegar a verdade e não esconder a verdade do povo.

A verdade é a substância primordial da sociedade, e sem ela nada subsiste, e ainda que ela seja, como diz o Caibalion, duas faces da mesma moeda, não pode estar dividida na sociedade.

A verdade, se não conquistada pelo despertar da crítica, será obtida pela guerra, como a da secessão americana que precisou ocorrer para que soubéssemos que a escravidão é errada, ou a revolução francesa que aconteceu para provar que os monarcas não possuem sangue azul.

A sociedade precisa de verdade e a verdade precisa ter autoridade, porque o espirito de uma comunidade repousa na percepção da realidade compartilhada.

A propósito, diz o primeiro princípio hermético que tudo é mental, o todo é mental, e que o próprio universo é uma projeção mental do todo.

Se isso for “verdade” os poderes do mundo são profundamente abalados em suas colunas de fundação quando não há consenso quanto a verdade que sustenta nossa civilização.

Nenhum reino dividido pode subsistir.