MEIO AMBIENTE

A ECONOMIA DE TUDO –O BOLSONARISMO E A CORRUPÇÃO IN NATURA

POR LÚCIO LACERDA

04/07/2021 19h09Atualizado há 3 meses
Por: REDAÇÃO

Da índole energética do mercado

Tudo que existe na vida do homem é uma representação de um elemento homólogo que existe no mundo cósmico.

Emerson dizia, sobre a linguagem, que algumas palavras são representações de fenômenos naturais, e que alguns fenômenos naturais, são representações de certos fenômenos espirituais.

Isso revela a linguagem humana entrelaçada a uma trama cósmica cujas origens e razões, que embora não tangíveis a percepção do homem, trazem a intuição de que a vida e os empreendimentos humanos podem não ser tão originais assim, se existe nas atividades humanas uma relação de subordinação natural e cósmica.

Nikolai Kardashev propôs uma escala para medir o nível de desenvolvimento de uma civilização, criando níveis de classificação que vão do I ao III, descrevendo da seguinte forma:

 

Nível I: Uma civilização capaz de aproveitar toda a energia potencial de um planeta.

 

Nível II: Uma civilização capaz de aproveitar toda a energia potencial de uma estrela.

 

Nível III: Uma civilização capaz de aproveitar toda a energia potencial de uma galáxia..   

 

Todas essas civilizações são puramente hipotéticas até o presente momento. Entretanto, a Escala de Kardashev é utilizada pelos pesquisadores do SETI, autores de ficção científica e futurologistas como uma orientação teórica.

O que é importante saber é que o valor adotado para medir o nível de desenvolvimento de uma civilização não é aleatório, pois energia é o fator do qual depende a existência e continuidade de toda a vida no universo.

Nada existe sem energia. A própria expansão do universo pelo evento do Big Bang é uma expressão magna do deslocamento da energia cósmica, que após sua deflagração, criou estrelas, sóis, pulsares, galáxias e toda a vida que existe no infinito.

A energia é o grande doador de vida no universo e tudo dela depende em todos os lugares.

Os sistemas solares existem em razão de uma ciranda energética em que alguns astros girando em torno de si próprios e em torno do sol, presos a seus trilhos orbitais, se recarregam continuamente, da energia doada pelo astro rei.

Civilizações antigas escolheram o sol como objeto de adoração a partir da constatação de que sem sua energia a existência dos seres não seria possível.

O sol aquece o corpo, torna visível os perigos e as oportunidades da floresta, faz florescer a erva que alimenta o homem e sua caça.

 Era óbvio aos antigos a sacralidade do sol.

Com o tempo a humanidade foi entendendo que outras fontes de calor poderiam ser reproduzidas pelos homens, e utilizadas em diversos processos que facilitariam a vida da espécie.

Todas as manipulações humanas de energia, desde o carvão até os atuais combustíveis fósseis e o uso da eletricidade, foram inspiradas sem dúvidas, pela observação dessa ciranda energética do sistema solar, do mudar das estações e da incontestável dependência que a vida tem do grande Hélio.

A moeda como unidade energética

A ciranda cósmica é o meio pelo qual o universo democratiza a própria energia, este doar e receber energia no plano cósmico, é totalmente sustentável, ao menos por alguns bilhões de anos, em nada sendo preterido nenhum ente estelar que participe do balé energético do universo.

Já na superfície da terra, o recriar e o redistribuir dos meios energéticos disponíveis a humanidade é coisa que não funciona de modo automático, mas depende da intervenção e deliberação dos homens a esse respeito.

Neste plano coletivo, os homens tomam domínio das energias disponíveis e a distribuem da maneira que for mais conveniente a um outro sistema de distribuição energética chamado de “Mercado”.

O mercado é então um sistema de produção e distribuição energética, em analogia e representação da dança cósmica da qual falamos acima, traduzida para termos e valores humanos, onde nada é doado no processo. Tudo é conquistado, seja pela utilidade ou valor simbólico.

Àquele Big Bang que um dia iniciou a corrida da vida, criou tudo o que existe no universo, todas as suas luzes e corpos,  e a sopa primordial que gerou as criaturas de suas entranhas. E estas criaturas, se tornaram herdeiras de tudo o que lhes circundavam, e passaram a tomar posse de seus bens.

Amontoamos ouro e criamos moedas, cuja circulação e distribuição obedecem a regras de direito e propriedade, onde cada pedacinho desse tesouro tem um preço a ser pago em contrapartida.

Isto nos mostra um sistema energético em que, por liberalidade solar, nos é dado um planeta vivo, com diversas energias decorrentes da magnitude estelar, como a madeira, o ferro, as gemas, a matéria prima para manipulação da energia nuclear e todos os minerais raros e úteis cujo o próprio acesso é rigorosamente controlado pelas instituições políticas dos homens.

Toda atividade econômica humana está fundada em recurso energéticos, e não existe nenhum setor mercantil que não dependa, direta ou indiretamente de energia. Energia é mercado e o dinheiro parece ser uma unidade humana de energia, distribuída sob critérios históricos mais ou menos justificados.

A teologia da prosperidade e o materialismo cristão apontam na direção hermenêutica em que é possível entender o acesso a recursos financeiros em abundância como  um sinal da graça divina e da apropriação pelo homem, da herança de Deus. Tanto que muitas pessoas adotam uma igreja pensando em melhorar de vida em termos econômicos.

 

A propriedade como expressão de mérito e honradez e a corrupção política

Esse vigor energético de que se apossou a pessoa detentora de quantidade considerável dessa unidade energética chamada dinheiro, é a um só tempo a garantia de uma vida tranquila onde todas as condições básicas de sobrevivência são atendidas com folga, e outras experiências facultativas são exercíveis, como também o sinal social objetivo de que haveria um mérito fundamental e intrínseco a lastrear tal ascensão econômica, de modo que tornar-se abastado é socialmente, prova de virtude e honradez.

Possivelmente por essa razão, a apropriação de riquezas por meios tidos como ilegítimos pelo regramento energético do capital, é considerado como reprovável emulação de virtude e honra, representadas por uma fortuna não conquistada, mas surrupiada.

Nesta lógica seguem as opiniões das massas quanto a corrupção política, com o agravamento de que nesses casos, não há apenas um embuste na trajetória ascendente daquele que se enriqueceu roubando, mas ainda uma revolta pelo fato de que a prosperidade daquele, decorre do empobrecimento do erário coletivo, sendo duplamente reprovado o autor de tal burla ao sistema de distribuição de riquezas instituído.

 A proclamada virtude do governo Bolsonaro e a tolerância para com o roubo “in natura

Se concordarmos que as riquezas do mundo decorrem das generosas doações do universo ao nosso planeta, também haveremos de concordar que dessas riquezas é que obtemos os recursos para a continuidade de nossas vidas, e que a moeda, ou o dinheiro, é o sistema de distribuição pelo qual cada um participa de um gigantesco complexo cooperativo, que é empreendimento humano, mas em tudo depende da disponibilidade natural, que a todos pertence.

O Brasil dos últimos anos tem experimentado a maior ruptura dos consensos ambientais desde a ECO 92, ultrapassando a perigosa linha de prudência e humildade diante do universo.

Omissão de dados sobre o avanço do desmatamento da Amazônia, incêndios diários nas florestas consumindo enorme parte de áreas de proteção, avanço de garimpeiros e fazendeiros sobre terras indígenas e um alucinado mercado de madeiras extraídas ilegalmente são apenas os sinais mais visíveis da apropriação indébita da herança da natureza, ou de Deus, por alguns poucos homens egoístas e burlões, que a todo olho, gozam de generosa parcimônia pelo julgamento das pessoas mais simples.

Estas lamentáveis ocorrências só servem a 3 propósitos, quais sejam:

1-      Ampliação da área cultivável sobre terras indígenas e áreas de florestas.

2-      Extração ilegal de árvores para contrabando internacional

3-      Extração de minerais valiosos clandestinamente

Estas 3 atividades, além de se constituírem em forma sorrateira de burla as normas de distribuição do capital, visto que clandestinas, ilegais e altamente danosas ao meio ambiente, que é a fonte de nossas vidas e de toda matéria prima posta à disposição do homem, coloca-nos em uma rota de atraso em relação ao mundo civilizado, pois em um planeta de superfície limitada, a tendência racional é que se desenvolvam tecnologias capazes de fazer produzir mais grãos por hectare, e não avançar sobre a floresta para ampliar a área de cultivo. A tendência racional é que toda madeira utilizada em todo setor seja de ambientes controlados de manejo, e que os minerais sejam extraídos de maneira controlada somente quando a relação de custo benefício ambiental demonstre a sustentabilidade da atividade extrativista.

Nossa civilização nem chega ao nível I na escala de   Kardashev, pois ainda não sabemos como explorar com eficiência todos os recursos energéticos de que dispomos, e é bom de lembrar que, segundo a mesma teoria de Kardashev, avalizada por Carl Segan, as civilizações se tornam de níveis superiores por imposição da evolução, e não por mera liberalidade, o que significa que essas civilizações passam por grandes filtros, que podem se constituir em colapsos climáticos, como o que se avizinha da humanidade, e não será possível subir de nível sem ter alcançado um nível completo. Não tem saltos ou supletivo no universo, e nossa espécie está em risco.

Por fim, sugiro que todo moralista anti corrupção, considere, o mais rápido que puder, que a corrupção sobre matérias  in natura é um roubo ainda pior que o de dinheiro, porque o dinheiro nasceu pra representar a riqueza natural, e não o contrário.