Opinião

BOLSONARO ENFEZADO E O CREPÚSCULO DE UM MITO

POR LÚCIO LACERDA

15/07/2021 13h27Atualizado há 3 meses
Por: REDAÇÃO

O Presidente Jair Bolsonaro ganhou as eleições com uma proposta muito ousada. Não apenas de varrer a corrupção do Brasil, mas de varrer do cenário do poder nacional os vermelhos de esquerda.

Fez melhor ainda. Conectou em seu discurso a corrupção aos partidos esquerda, como que corrupção fosse uma invenção da esquerda.

No apogeu do lavajatismo o então capitão presidenciável encontrou uma atmosfera perfeita para convencer a população de que o flagelo da corrupção estava nas entranhas do espectro político da esquerda, que em seu projeto ideológico, deveria ser não apenas enfraquecida, mas destruída.

Com uma crise política instaurada pela derrubada da Presidente Dilma, e agravada pela Lava Jato, com Lula preso e a esquerda nas cordas, Bolsonaro encontrou o ambiente propício para disseminação de ideias radicais de exclusões e generalismos.

Acabar com os vermelhos e tudo o que lhes fosse associável, como as artes, as comunicações, os direitos humanos, as pautas identitárias e os sindicatos era o mote do novo paradigma ideológico que Bolsonaro pretendia fundar.

Ainda assim, com todos esses ventos auspiciosos, Bolsonaro ganhou as eleições por pífios 10% de diferença para seu segundo colocado, que ele chamava de poste, e que ia, segundo dizem, consultar Lula no cárcere, para obter orientações políticas.

Apenas 10%. Essa vantagem na votação só não foi menor que as eleições de 2014 em que Dilma venceu, em seu pior momento, Aécio Neves com vantagem de cerca de 4%.

Em 2010 Dilma ganhou de Serra por cerca de 15% de vantagem, e Lula em 2006 e 2002 venceu os candidatos do PSDB, Serra e Alkmin, por cerca de 21% de vantagem.

Bolsonaro em seu melhor momento, com os adversários nas cordas, conseguiu 10% de vantagem sobre o poste. Por pouco o poste não lhe mija.

Como se já não fosse muito o Presidente querer destruir a esquerda, se isso fosse possível, já que esquerda e direita são fatores de equilíbrio imprescindíveis ao balanceamento e estabilidade das relações de representatividade democrática, tão logo assumiu o poder, começou a ampliar o seu rol de inimigos.

Bolsonaro achou que tinha conseguido um resultado tão espetacular nas eleições que podia peitar todos os outros poderes, impunemente, assim como setores muito poderosos da sociedade.

O que Bolsonaro não parou para refletir é que de fato, teve um resultado esplendido nas eleições, mas em relação a sua carreira de deputado de baixo clero, mas não em relação a história do presidencialismo brasileiro.

Bolsonaro conseguiu subitamente eleger, em sua onda sazonal de popularidade, uma das maiores bancadas parlamentares da Câmara dos Deputados, com 53 parlamentares de seu partido nanico ( PSL), do mesmo tamanho da bancada de partidos que existem há mais de 40 anos como é o caso do PT.

A glória era demasiada para compartilhar e ele brigou com o partido e dele se desfiliou. Bolsonaro não é homem para compartilhar nada, mas para conquistar e mandar.

Tanto que no exercício da presidência do Brasil, que segundo a Constituição é a União Indissolúvel dos Estados, Municípios e Distrito federal, ele conseguiu brigar com 25 dos 27 Governadores do país, levando-os a subscreverem diversos manifestos contra seu governo.

Se a pandemia matou, ele colocou a culpa em governadores e prefeitos, se o combustível está caro, culpa governadores, se o gás liquefeito de petróleo está caro por causa da dolarização do produto que foi uma política eleita por si mesmo via posto Ipiranga, a culpa ele coloca em outras lideranças.

Ele faz tudo isso como se os votos dos outros não tivessem nenhuma representação, mas só os votos de seus eleitores é que tivessem importância para o Brasil. Seus 10% de vantagem são, na sua opinião, a expressão da vontade da maior parte do povo brasileiro.

Bolsonaro se sente a consciência nacional encarnada, e ignora que quase 90 milhões de brasileiros não votaram nele.

Logo as forças contra as quais ele implacavelmente quis lançar ataques diuturnos o colocaram nas redes, e ele não quis pedir ajuda aos universitários, porque estes, segundo sua doutrina ideológica, são surubeiros e maconheiros, e então recorreu aos milicos.

Trocou todo comando das forças armadas, e enfiou 7 mil militares em cargos estratégicos no governo, e como isso não bastou, comprou o centrão sob a liderança do PP, principal partido implicado na Lava Jato, e também fez um agrado aos milicos e a si mesmo, criando o teto do teto, ou os supersalários dos militares no governo.

Com a instauração da CPI da Pandemia em meados de 2022, após mais de 500 mil mortos de Covid 19, a sua responsabilidade por estas baixas é questionada no inquérito parlamentar e muitas suspeitas de desídia, incompetência e corrupção pairam sobre seu governo, e isso se reflete nas pesquisas que apontam o favoritismo da esquerda, com larga folga, para o cenário eleitoral de 2022.

Bolsonaro é um profeta – “ Seu eu falhar, a esquerda volta” teria dito após os resultados das eleições que fizerem dele o presidente.

Na dificuldade de reconhecer suas falhas, Bolsonaro decide culpar as urnas eletrônicas pela derrota que se anuncia, sustentando que elas poderiam, através de um hacker, roubar os votos que ele não tem, e dá-los a outro candidato. Apenas o gado compra a ideia, mas o rebanho é cada vez menor.

Tendo entrado espontaneamente no olho do furação e colhendo os resultados das suas próprias ações, solitário em sua jornada de herói nascido para desonra, desconfiando de tudo e de todos e lançado ao opróbrio dos reis destronados, eis que tenta uma última aposta na compaixão dos que já haviam lhe sido solidários quando do atentado que sofreu durante a campanha.

Anuncia em seu Twiter que em decorrência daquela quase esquecida facada de outrora, supostamente  encomendada pelo PSOL,  estava se hospitalizando por conta de uma obstrução intestinal, e que poderia ser submetido a uma cirurgia de urgência, quiçá perigosa e terminal.

Os jornais noticiaram que ele estaria fazendo uso político de seu estado de saúde, outros que teria sido intubado, por precaução, e até o momento não se sabe se esse enredo será capaz de lhe devolver os eleitores que perdeu ao longo de seus 30 meses de mandato.

O certo é que a nação está mais tranquila sem os impropérios do presidente, que se encontram em recesso durante sua hospitalização.

Calado, Bolsonaro é um poeta. O UOL disse que 1 quilo de material fecal foi retirado do intestino do presidente, e eu me lembrei de uma frase de jesus: - “ A boca fala aquilo de que o coração está cheio”. Ou será o intestino?