CRISE INSTITUCIONAL

POVO: UMA FORÇA CEGA QUE PENSA ENXERGAR

POR LÚCIO LACERDA

29/08/2021 17h09Atualizado há 3 semanas
Por: REDAÇÃO

"Portanto, caso a luz que em ti há sejam trevas,

que grandes trevas serão!"

Mateus, 6:22

Não me iludo com o bom selvagem de John Locke, nem com a hipotética harmonia pré estatal de Rousseau. Pra mim certo está Hobbes que pontificou que o homem é o lobo do homem.

Se Hobbes estiver certo em sua teoria de formação do estado, a humanidade está em permanente estado de guerra, e o governo, enquanto entidade estatal, é apenas o gestor da arena que a organiza.

O estado substitui a guerra física pela guerra formal em que os conflitos de interesses são dirimidos pela justiça estatal e não pela força bruta, que agora é utilizada, em caráter exclusivo, pelo estado, para fazer prevalecer seus vereditos.

Mesmo que a força, em seu estado bruto, tenha perdido sua importância na vida cotidiana após a formação do estado, as novas regras de jogo continuam a impor vitórias e derrotas aos membros das sociedades modernas, e as figuras do forte e do fraco, do opressor e do oprimido, permanecem compondo a dramatização da vida, como protagonistas do teatro da história da humanidade.

Verdade que importa em uma sociedade democrática que as pessoas desenvolvam mais músculos no cérebro que nos braços, e que um troglodita de 2 metros de altura pode ser facilmente vencido por um anão que seja melhor instruído, mas o fato é que, a força, ainda que exercida de maneira muito mais sofisticada, sem a brutalidade direta, continua a determinar quem ganha e quem perde o jogo. Afinal, a força do direito, em último caso, reside no direito da força que agora compete ao Estado.

O jogo sem regras complexas, que orientava o convívio das populações humanas pré estatais era imensamente mais simples que o regramento das civilizações modernas. Quem tinha mais força física, ficava com a coisa.

Daí que nessa transição do estado de natureza para a vida civilizada ocorreu tremenda polarização que fez transformar o mais forte em mais fraco, subitamente.

Agora é preciso saber ler, compreender a lei, não ultrapassar os limites, é inadmissível alegar ignorância das regras e é imperioso adaptar todas as pulsões, desejos e ambições aos rigores legais.

Estamos em permanente estado de guerra e a beligerância é uma característica inata do bicho homem, tanto que não confiamos uns nos outros nem mesmo enquanto instituições simbólicas.

Somos beligerantes porque queremos o poder, e o queremos mais que tudo, e agora não podemos nos comportar individualmente como um núcleo de poder independente, porque temos o estado, precisamos garantir o autocontrole do estado, dividindo seus poderes em três partes, assim como fez Apolo ás primeiras linhagens de homens que roubaram o fogo de Zeus.

Claro, se os homens são assim desmedidos em suas ambições, também serão as instituições por si criadas, dotadas de sua assinatura genética e comportamental, e para controla-las, será preciso dividi-las, pois é dividindo que se controla.

É consenso nos dias atuais que a democracia é o pior regime de governo do mundo, a exceção de todas as outras formas, e que sua manutenção depende da tripartição de poderes e de muita demagogia.

No Brasil de hoje, o presidente da república decidiu testar a consistência do consenso em torno da aclamada tripartição de poderes.

Hoje afirmou que só existem dois poderes, o executivo e o legislativo. Ontem disse que não irá obedecer à decisão do STF sobre demarcações de terras indígenas, caso não prevaleça a sua opinião sobre o tema, e de maneira mais ou menos explícita, ainda  conclama seus apoiadores a comprarem fuzis para defender suas liberdades, afirmação cujo significado oculto é reservado aos iniciados que aprenderam a combinar com cré.

Quase ¼ da população brasileira parece concordar com o presidente, e não raras vezes tomam as ruas reivindicando a dissolução do parlamento e da corte suprema, para que o presidente possa governar altaneiro e soberano para o público que o elegeu, preferencialmente exilando ou executando pessoas ligadas a partidos opositores, principalmente os do espectro de esquerda.

Digno de nota é que essas pessoas que apoiam essa violenta ruptura institucional não compreendem e parecem nunca ter compreendido nem o jogo civilizacional, nem suas regras, o que se deduz de abundantes manifestações contra os poderes da república, lançadas ora nas redes sociais, ora em plaquetas de protesto nas ruas.

Essas manifestações postulam por soluções binárias e de simplicidade paleolítica para os problemas da vida moderna.

A segurança pública se resolve com pena de morte ao mesmo tempo em que a morosidade judicial se resolve com a subtração do direito de defesa, já que direitos não se concedem a inimigos.

Um estado próspero e ágil seria conquistado pela dissolução dos poderes legislativo e judiciário, funções a serem assumidas pelo chefe do poder executivo, que poderia gerir a nação sob inspiração da bíblia sagrada.

Artistas, jornalistas, juristas, sociólogos, historiadores e antropólogos, e diversos outros profissionais de outros setores das ciências deveriam ser erradicados do mundo, por muito complicarem as coisas que são simples. Para um estado funcional, basta que haja um rebanho, e um pastor.

 Quilombolas, indígenas e sem-terra são considerados indolentes e imprestáveis para o modelo de estado pretendido pela turba reacionária, e aqui aplica-se o termo no mais genuíno de seus sentidos. Desejar retroagir no tempo de modo a se aproximar ao máximo do estado de natureza.

Não querem o fim do estado, é verdade. Querem que o estado seja reduzido a um único déspota, sem refletir, no entanto, que, uma vez alcançado o poder, o déspota só consegue se manter se neutralizar todas as vozes dissonantes, o que significa que quando se procura um déspota, procura-se alguém contra quem não se poderá discordar em momento algum do futuro.

A paz social na democracia repousa sobre as três colunas representadas pelas funções de estado, se uma ou duas delas ruírem, apenas dois desfechos são possíveis. Ou, pela degeneração das funções de estado, perde-se o controle social, o que implica no retorno generalizado de camadas significativas da sociedade ao estado de natureza, com todo tipo de selvageria que isso representa, ou a reconstrução da ordem social pela força, terror e violência.

Estamos em permanente estado de guerra, por motivos inconscientes, talvez ressentimentos sociais, históricos, étnicos ou mesmo espirituais, e mantemos nossa violência intrínseca em estado de hibernação enquanto há uma ordem social promovida pelo estado soberano, mas prontos a retornar as nossas origens selvagens ao primeiro sinal de ausência das instituições estatais.

Um blackout ou apagão geral e parte de nós vai aos saques a lojas e supermercados. Uma carreta tomba e espalha seus produtos pela erma e longínqua rodovia que não apresenta sinais de vigilância estatal, e muitos de nós recolhem e tomam para si o saldo da desgraça alheia.

Um agente político com capacidade de manejar esses vis sentimentos latentes nos corações das turbas é como um daqueles vilões de filme de terror que pretende ressuscitar um exército de mortos vivos para dominar o mundo e transformá-lo em algum reino perdido da antiguidade.

Em um mundo em que dizem que tudo tem se tornado líquido, sinto que esse esvaziamento do sentido e da reflexão, que muitos chamam de niilismo, ou a vida desprendida do sentido e do propósito, é como um rio que se recusa a fluir para sua foz, mas busca o retorno a suas nascentes.

Precisamos ser capazes de nadar para o futuro contra a correnteza.