NARCOPOLITICA

DA NARCO POLITÍCA A NARCOCRACIA

POR LÚCIO LACERDA

05/09/2021 17h12Atualizado há 2 semanas
Por: REDAÇÃO

Os episódios do helicoca do Perrela e aerococa do governo federal se apresentam na vida brasileira como isoladas ocorrências sem potencial de colocar o Brasil no rol de repúblicas como a colômbia, Bolívia, Paraguai ou Panamá, mas isso pode não ser bem assim, se consideramos esses eventos como expressões mais ousadas de uma robusta e institucionalizada narcopolítica, profundamente enraizada em todas as esferas do poder nacional, como parasita em relação de simbiose com uma frondosa árvore dos vívidos bosques de pindorama.

O jornalista paraguaio Chiqui Avalos,  em novembro de 2013, falou, em um artigo intitulado “Brasil, uma narcocracia” sobre essa relação da política brasileira com as drogas, e partiu do episódio do helicoca, para dar ao Brasil um lugar entre as repúblicas droguistas da América Latina.

No referido artigo, Avalos chama Rondônia de narcoprovíncia, e cita o episódio do falecido senador Olavo Pires que foi executado por pistoleiros profissionais, com o corpo partido ao meio por tiros de submetralhadora, num aparente acerto de contas dos cartéis colombianos.

O jornalista conclui que Pires era alguém que, ao que tudo indica, lavava dinheiro do tráfico internacional em empresas de sua propriedade.

Segundo o periodista, a fortuna de Pires  (aviões, fazendas, revendas de automóveis e máquinas pesadas) brotou de um dia para o outro e que o povo de Rondônia achou isso tão normal que o presenteou com um mandato de Senador da República.

A história de Rondônia com as drogas é muito maior que Olavo Pires, e há abundantes exemplos, com numerosos políticos, novatos e veteranos, envolvidos diretamente ou financiados pelo tráfico de drogas, cujos nomes não vou mencionar, por não ser o objetivo deste “textículo” fazer persecução aos tais, mas apenas conjeturar sobre os danos que este tipo de associação causam a integridade da ordem estatal.

  

COMO FUNCIONA A NARCOCRACIA?

Os barões da droga, que estão presentes em todos os países do mundo, pretendendo ganhar vantagem tática na expansão de seus negócios, passam a participar da vida política financiando candidatos a cargos públicos em todas as esferas do poder.

O primeiro dano que a interferência do narcotráfico no processo democrático eleitoral causa a democracia é o desequílibrio do pleito pelo abuso do poder econômico, atropelando com torrentes de dólares do tráfico, diversas lideranças populares com parcas fontes de financiamento de campanha, que são engolidas pela voracidade dos narcocandidatos. Então, o primeiro dano que o tráfico causa na política é  o sufocamento da voz do povo, subvertendo o resultado eleitoral pela irrigação indevida do caixa de certos candidatos que lhe são afetos e associados.

Depois, com vereadores, prefeitos, deputados, govenadores e senadores eleitos, o narcotráfico passa a ter o poder real, concreto, exercido por uma confraria de barões da coca e aliados muito bem pagos para defenderem os interesses economicos do setor. É a bancada do NARCONEGÓCIO.

Com seus tentáculos abraçando todas as esferas do poder nacional o Narconegócio se torna POP, e sua influência perpassa alguns setores da Polícia,  Judiciário, Ministério Público e até das Forças Armadas.

Quando fechado o perfeito circulo de influência, são quase inalcançáveis pelas forças de estado, visto que agora estão dentro do estado e parte de sua força.

Nem todos os políticos eleitos pelo tráfico são traficantes. Mas como seus mandatos se originam de favores advindos do tráfico, sempre existirá o necessário dever de retribuir o apoio, compartilhando sua infuência para as mais variadas empreitadas, desde o acolhimento de um aliado no serviço público, até a nomeação de um servidor amigo para uma função sensível, até uma conversinha com um chefe de policia ou magistrado.

Tome como uma figura exemplificativa uma hipótese ucronica de que o Olavo Pires viesse a ser governador de Rondônia. Este governador seria o cara que nomearia o Procurador Geral de Justiça, o Secretário de Segurança Pública, o Chefe de Polícia, o comandante de seu gabinete militar e todos os comandantes de todos os batalhões da PM no estado. Também nomearia todos os desembargadores do TJ.

Percebe o tamanho disso?

Não estou dizendo que essas pessoas todas teriam tendencia a se corromper só porque o agente nomeante tivesse relações obscuras com o narcotráfico, mas que, dado que o poder é fluido, muitas interferências indevidas são possíveis quando o tráfico governa.

UM NEGÓCIO, VÁRIOS SISTEMAS

Como já disse, nem todos os políticos eleitos com o dinheiro do tráfico, são traficantes, mas sistemas de financiamento eleitoral são desenvolvidos ao longo dos anos e das reeleições, reiteradamente, de modo que o político que antes não fazia parte da cadeia produtiva do tráfico, passa a nele se imiscuir de tal forma, que não se sabe mais em que lugar é possível separar o político do cooperador do tráfico.

Isso porque tanto o caixa 2 de campanha quanto os lucros do tráfico precisam ser legitimados e entrarem no mercado com a autoridade da grana limpa, e o político sabe que para haver recursos para sua campanha, o dinheiro precisa ser lavado.

Daí políticos e traficantes realizam esfoços comuns para criar a grande lavanderia de dinheiro, composta por empresas de vários ramos de atividade, principalmente de comunicação, garagens de carros seminovos, indústrias, moteis de beira de estrada, lojas de departamento, transporte aéreo, fazendas, fornecedores de produtos ao serviço público,   e igrejas.

Note que todas essas atividades são suscetíveis de justificar ótimos lucros, com baixa vulnerabilidade a auditorias fiscais em razão do tipo de negócio. Os moteis de beira de estrada por exemplo, ainda que com dezenas de quartos vazios, não estão obrigados a registrar a identidade de seus hóspedes, de modo que nunca será possível a uma auditoria saber se haviam 10 ou 100 pessoas hospedadas no ultimo fim de semana. As igrejas, são detentoras de imunidade tributária e qualquer valor que seus representantes tenham em caixa, ou na mala, são facilmente justificáveis, daí porque é raro ver um pastor evangélico com dinheiro na cueca. As garagens de carro renovam subitamente suas frotas, alugam seus carros usados por valores muito apreciáveis e mantém uma quantidade enorme de veículos em seus pátios em nome de terceiros a titulo de consignação.

Em certo momento da vida matrimonial entre política e tráfico a mútua entrega entre os nubentes é tão profunda que não se sabe mais quem é quem, estando todos a concorrer para a manutenção do poder a qualquer custo.

Em Rondônia, à volta de todo narcopolitico há uma legião de empresários de vários ramos de atividade, alguns dos quais citei acima, concorrendo com sua parte para manutenção do status quo do Narconegócio, que gera emprego e poder.

 

SOBRE O ASSESSOR DE MARCOS ROGÉRIO

Marcelo Guimarães Cortez Leite, assessor do Senador  Marcos Rogério e lotado em sua base regional em Porto Velho, teve sua prisão preventiva decretada por ter em tese participado de um esquema bilionário de tráfico de drogas, ao mesmo tempo em que atuava no gabinete do Senador.

Isso certamente não prova que o próprio senador é um narcocrata, mas a resposta que o Senador da República deve a sociedade não é apenas dizer que exonerou o assessor emporcalhado. Mas esclarecer por qual razão, ou por meio de quem, escolheu exatamente esse indivíduo para ocupar cargo de tamanha confiança.

 É preciso muito cuidado na nomeação de assessores no gabinete. O Gabinete é o santuário da atividade política. Esse assessor traficante já tinha se envolvido e era citado na operação apocalipse de 2013, que também tratava de tráfico. Era pra saber. Mas a questão nem é essa, o sujeito tem vários processos de execução de dividas de pequenos valores na década de 2010, o que informa que ele é peixe pequeno e provavelmente um peão dispensável dentro dessa cadeia criminosa.

Marcelo Guimarães Cortez Leite antes tinha sido assessor do gabinete de assuntos estratégicos da ALE RO e ocupou outros gabinetes.

O segredo está em quem o indicou para os cargos. Se indicou e foi aceito sem ressalva ou pesquisa, é razoável pensar que quem indicou seja  financiador da campanha dos agentes nomeantes?

A mais criteriosa e absolutamente correta análise sobre o que aconteceu no gabinete de Marcos Rogério foi dada por ele mesmo:

os atos do assessor, que foi exonerado após a ação da PF, são “totalmente estranhos” à atividade que ele exerce como parlamentar.

Este é justamente o problema Senador.

 Durma com isso. Essa mancha é difícil de sair. Digo, essa trip é bad.