SAÚDE PÚBLICA

HEMODIÁLISE CACOAL : EXPLODE NÚMERO DE MORTOS SOB ADMINISTRAÇÃO MUNICIPAL - ÁGUA CONTAMINADA

SEGUNDO DONOS DA CLÍNICA, EM 11 ANOS DE ATIVIDADE NUNCA HOUVE UMA OCORRÊNCIA DESSE TIPO

13/10/2021 17h14Atualizado há 5 dias
Por: REDAÇÃO

 

CONTEXTO – A INTERVENÇÃO MUNICIPAL E SEUS MOTIVOS

 O serviço de hemodiálise de Cacoal, que foi assumido pela prefeitura em 10 de fevereiro deste ano, tem sido uma enorme fonte de problemas para o município que não tem experiência na administração desse tipo de procedimento.

O Município de Cacoal decidiu intervir na hemodiálise em fevereiro de 2021 em razão de a empresa ter anunciado publicamente que não estava em condições de bancar os custos da operação,  devido a  inadimplência da prefeitura.

O município deixou de repassar a empresa em 2020 cerca de 1 milhão de reais, parte em glosas (serviços prestados que a prefeitura se recusou a pagar) e pela apropriação de cerca de 140 mil reais que o Ministério da Saúde repassou para compensação de perdas da empresa TRS e que o município reteve para si.

 AS DIFICULDADES FINANCEIRAS

 Tão logo assumiu o serviço, a prefeitura passou a contar com uma ajuda de mais 60 mil reais mensais repassados pelo Governo do Estado, e dois meses depois de ter tomado pra si o serviço, o município, não tendo dinheiro para comprar insumos, pediu ao governador que antecipasse 3 parcelas de 60 mil reais para sanear a situação.

Durante a intervenção, salários de empregados sofreram atrasos, e o prefeito não cumpriu o compromisso feito publicamente de pagar parcela do 13º salário atrasado dos funcionários.

Na última semana, a prefeitura foi condenada subsidiariamente, pela Justiça do Trabalho, a pagar mais de 150 mil reais a cinco funcionários da empresa.

A requisição administrativa incluiu o confisco do CNPJ da empresa, a direção dos funcionários e a apreensão da conta bancária, dos créditos a receber e da gestão total da empresa. Apesar de receber os créditos da empresa, a prefeitura não honrou os compromissos financeiros da mesma, deixando de pagar as dívidas que iam vencendo durante sua intervenção.

Até o plano de saúde dos empregados foi cancelado por falta de pagamento após notificação da operadora de saúde.

 A FALTA DE EXPERTISE

 A prefeitura não tem funcionários capacitados para gestão de um empreendimento de média ou alta complexidade, e por esta razão precisou requisitar todos os funcionários da empresa, gerando um passivo trabalhista que certamente ficará na conta do município, já que a intervenção na atividade quebrou completamente a empresa, cujo CNPJ só é usado pela prefeitura para legalizar as compras de insumos.

As médicas nefrologistas, responsáveis técnicas pela hemodiálise,  já denunciaram ao Ministério Público que a pessoa nomeada como interventora não tem condições de dirigir a operação de hemodiálise, revelando inclusive que a clínica estava em vias de sofrer uma contaminação na fonte de água que poderia comprometer a segurança dos pacientes.

Esta informação foi publicada em julho pelo portal Estado de Rondônia (CLIQUE AQUI PARA LER)  mas o MP não adotou providências quanto a isso.

 CONTAMINAÇÃO CONFIRMADA

 O portal estado de Rondônia teve acesso a um laudo oficial do Laboratório Analytical Química e Engenharia, especializado em exame microbiológico de empresas de hemodiálise e situado em Cuiabá, emitido em 8 de outubro último, que confirma a contaminação bacteriana em pelo menos 3 máquinas de hemodiálise da clínica.

O exame microbiológico da água utilizada na hemodiálise é uma exigência da RDC nº 11/2014 da ANVISA, e deve ser feito mensalmente por todas as clínicas de hemodiálise para garantir a segurança dos pacientes.

O último laudo de análise da água da hemodiálise de Cacoal confirmou a presença de bactérias heterotróficas em dois pontos de alimentação hidráulica de máquinas de diálise, e também na água  circulante já dentro de uma das máquinas.

A hemodiálise é um tratamento primordial para pacientes renais crônicos. Nesta terapia, a água é utilizada para produção da solução de diálise e para reutilização de dialisadores, e por isso sua qualidade microbiológica deve ser garantida, uma vez que excessivos níveis de bactérias são responsáveis por sintomas como febre, calafrios, hipotensão e choque, podendo levar até mesmo à morte dos pacientes. Sendo assim, este exame objetiva avaliar a qualidade microbiológica da água utilizada em centros de hemodiálise e caracterizar bactérias patogênicas isoladas desta água cuja amostra foi colhida em 26 de agosto de 2021 na clínica de diálise de Cacoal.

 HISTÓRICO: TRAGÉDIA DE  CARUARÚ

 Há mais de 25 anos, a vida de 126 famílias de Caruaru e de municípios vizinhos foi marcada por um caso que ficou conhecido como "A Tragédia da Hemodiálise". Aproximadamente 60 pacientes morreram por causa de uma intoxicação. A causa apontada pela Secretária Estadual de Saúde foi hepatite tóxica. O episódio foi relembrado em uma série realizada pelo ABTV 2ª Edição.

 Tudo aconteceu no Carnaval de 1996. A equipe de plantão da TV Asa Branca recebeu a informação de que pacientes de uma clínica particular atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) passaram mal depois de uma sessão de hemodiálise.

O governo estadual designou uma comissão de investigação. A polícia também investigou o caso. A primeira hipótese levantada foi a contaminação da água usada no processo de hemodiálise. Ela vinha da Barragem de Tabocas por meio de caminhões-pipa fornecidos pela companhia de saneamento do estado.

Durante esse tempo, ninguém nunca assumiu a responsabilidade pela água que foi apontada como a causa das mortes e das intoxicações. A direção da clínica alegava que comprava a água achando que era de boa qualidade, mas, a recebia com excesso de cloro. Por outro lado, a gerência regional da companhia de saneamento alegava que depois que a água era fornecida a responsabilidade era da unidade de saúde, sugerindo, assim, que a contaminação acontecia no processo da hemodiálise.

Depois deste trágico acontecimento a ANVISA criou diversas regras sanitárias para evitar esse tipo de ocorrência, e atualmente as clínicas de hemodiálise possuem suas próprias ETAs ( estações de tratamento de água por osmose reversa).

 O CASO ESPECÍFICO DA TRS

 No caso da TRS a contaminação foi confirmada nos pontos de alimentação hidráulica das máquinas de hemodiálise, ou seja, na ponta da tubulação que fornece a água que vai passar pela máquina e também pelas veias do paciente.

Uma das amostras comprometidas foi retirada de dentro da máquina de hemodiálise, o que significa que a própria máquina já está contaminada.

 O QUE DIZEM OS DONOS DA EMPRESA

 Em contato com os proprietários da empresa praticamente confiscada pelo município, foi informado ao E.R. que tal situação, em 11 anos na gestão da hemodiálise, jamais aconteceu, e que quando isso ocorre, significa que a segurança dos pacientes já está em risco há muito tempo, pois as amostras para o exame, coletadas mês a mês, são aleatórias e quando chega a aparecer no exame, significa que muito provavelmente podem haver outros focos de contaminação.

 O QUE DIZ A SECRETÁRIA DE SAÚDE

 A secretária de saúde, Janayna Gomes, foi contatada pelo E.R. pelo WhastApp, mas até o fechamento desta matéria não respondeu as indagações da reportagem.

 AS 30 MORTES - O QUE OS DADOS DIZEM

 O portal Estado de Rondônia diligenciou com suas fontes para saber se há alguma relação entre a gestão da hemodiálise feita pela prefeitura após a intervenção, e a segurança dos pacientes e o cruzamento dos dados de óbitos referente ao período de intervenção municipal e o mesmo período do ano anterior são assombrosos.

Somente entre fevereiro de 2021 (quando a prefeitura assumiu a atividade) e o mês de setembro de 2021, dentro de um contexto de cerca de 110 pacientes crônicos de terapia renal substitutiva, houve nada menos de 30 óbitos, em apenas 7 meses.

No mesmo período do ano passado, quando a empresa era administrada por seus proprietários, com uma média de 136 pacientes em terapia renal substitutiva, houve 14 óbitos.

Os dados informam que praticamente 30% dos pacientes em tratamento na hemodiálise neste ano morreram e este número não é normal segundo médicos ouvidos pelo E.R.  que informaram ainda que, a depender das providências que o município venha a tomar, pode haver uma explosão de óbitos em virtude da contaminação da água, já que constatada pela primeira vez na clínica.