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CINEMA

MATRIX RESURRECTIONS - A ILUSÃO DA ESCOLHA

Por Lúcio Lacerda

23/12/2021 14h25Atualizado há 4 semanas
Por: REDAÇÃO

Os homens construíram as máquinas e elas se emanciparam entrando em guerra contra seus criadores. No meio do conflito, a humanidade achou que seria uma boa ideia usar bombas nucleares contra os inimigos, mas acabou bloqueando a entrada de luz solar na atmosfera.

Tendo vencido a guerra, mas sem energia disponível para manutenção de suas vidas sintéticas, as máquinas aprisionam e cultivam seres humanos em casulos térmicos que agora substituem o sol no fornecimento de energia para o mundo inorgânico de criaturas hi tech.

Os bilhões de seres humanos confinados em extensos campos de cultivo energético estão com suas mentes conectadas a uma estrutura de realidade virtual que simula o mundo antes da guerra, onde todos seguem suas vidas ignorando seu próprio cativeiro e todos os acontecimentos anteriores.

É neste contexto que se dá a trama da quadrilogia cinematográfica Matrix. Matrix é o mundo que as máquinas inventaram para distrair as mentes humanas, enquanto a temperaturas de seus corpos alimentam a cidade das máquinas.

Em cartaz desde ontem nos cinemas, o novo Matrix Resurrections, retoma a história, não de onde parou no último filme, mas 60 anos depois, em um mundo onde Neo e Trinity não se conhecem, e portanto, não partilham nenhum passado comum.

Ele é o programador de uma grande empresa de tecnologia, ela é casada, tem dois filhos.

Do outro lado da vida, no mundo real, os seres humanos libertos da Matrix vivem em um lugar chamado “Io”,  e “Zion” não existe mais. Morpheus agora é uma máquina e graças a cooperação técnica de alguns robôs insurretos os seres humanos já conseguem cultivar alguns vegetais.

Essa permuta entre os seres humanos e seus inimigos parece ser uma grande questão neste último filme que a todo tempo expõe a simbiótica relação entre orgânicos e mecânicos, mesmo que no conflito.

A constatação que parece saltar da tela enquanto o tema ostensivo parece ser a reconexão entre Neo e Trinity, é a de que máquinas e homens precisam uns dos outros para sobreviver, e que a escravidão dos seres humanos é condição sine qua non, para a continuidade da vida de homens e máquinas.

A libertação total da humanidade sequer é cogitada no filme, pois se todos fossem libertos, em um mundo destruído, sem sol, comida ou ordem social, seria a extinção da espécie, ao mesmo tempo em que as máquinas perderiam sua fonte de energia e se desligariam.

As máquinas são toda a luz que existe nesse mundo pós-guerra, e para os humanos o que importa é tão somente a liberdade de um pequeno número de pessoas despertas, talvez uns 144 mil, vivendo na oculta cidade de Io.

A Matrix é uma simulação onde a mente dos aprisionados ganham relativa liberdade, interagindo com outros cativos em um grande palco de ilusões. Muitos lutariam para manter esse mundo, ainda que falso.

Em Matrix Resurrections o grande dilema é a existência ou não da possibilidade de se fazer escolhas, e quem assistir se surpreenderá ao perceber que é possível expor uma narrativa sobre amor e liberdade, onde escolhas, na verdade, não podem ser feitas.