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OPINIÃO

O ANEL DE GIGIS E O DOM DA INVISIBILIDADE

Por Lúcio Lacerda

17/01/2022 15h52Atualizado há 4 meses
Por: REDAÇÃO

                 

 O anel de Gigis é um artefato mágico citado por Platão em sua obra “A república”, que dá ao seu possuidor o poder de ser tornar invisível quando quiser.

A metáfora é descrita em um contexto filosófico em que Platão pretende demonstrar a verdadeira natureza da virtude e da justiça, confrontando a virtude verdadeira com a sua emulação.

Um homem com tal poder poderia obter qualquer coisa que desejasse por meios ilícitos sem que fosse jamais descoberto e punido, já que protegido pela invisibilidade, e logo,  de qualquer possibilidade de flagrante.

Platão conclui de certa maneira, que, se existisse um homem capaz de usar tal poder da invisibilidade e que nunca o usasse para ato ilícitos, mesmo sem chance de ser punido, este seria considerado pelos observadores como o mais miserável idiota, visto que a maioria dos homens creem em seus corações que a injustiça é sempre mais proveitosa para o indivíduo que a justiça.

 Platão pôs à lume que a aparência de justiça nem sempre se traduz em justiça verdadeira e substantiva, visto que decorre em muitos casos da necessidade de não se aparentar injusto, e não sofrer as consequências da injustiça praticada, a punição.

Cícero ao discursar sobre o papel dos experimentos mentais na filosofia, usando como modelo teórico a história do anel de Gigis, pontificou que o bom indivíduo toma suas decisões com base no medo da degradação moral que representa uma ação, e não no medo da punição e dos efeitos negativos.

Mais tarde Kant veio a criar os conceitos de imperativo hipotético e categórico.

Nestes imperativos repousam as mais fundamentais razões do agir. O imperativo hipotético seria àquele agir instrumental, para o alcance de um fim desejável e útil ao indivíduo.

No plano da adaptação do indivíduo à sociedade, e a seus códigos de conduta, se uma ação, ou não ação, é evitada com  o fim exclusivo de se conformar a uma ordem coercitiva, então o imperativo que levou o homem a ação é hipotético.

Então o imperativo hipotético se relaciona a uma finalidade/utilidade e não decorre de uma motivação moral, mas instrumental.

É dizer que, se uma ação que eu pratico não se vincula a uma motivação genuinamente moral, mas a um resultado finalístico, mesmo que ela tenha uma aparência de justiça, não passa de uma emulação do que é justo.

Entre Platão e Kant, muitos escribas bíblicos, e até o próprio Jesus trataram do tema:

“ Não saiba sua mão esquerda o que faz a direita” – Jesus

“Acautelai-vos do Fermento dos Fariseus Hipócritas”

"Este povo honra-me com seus lábios, mas o seu coração está longe de mim." Mateus 15.8

“Traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te” São Paulo

 

A tradição judaico cristã é repleta de passagens que tratam do tema hipocrisia, imprimindo-lhe tão especial desaprovação que o símbolo da segunda aliança, que consiste na retirada do prepúcio das crianças do sexo masculino teria pretensão originária de evitar que os homens de Israel emulassem a conjunção carnal pela masturbação, simbolicamente.

São Paulo, em sua carta ao Romanos, entendendo que a circuncisão física era também insuficiente para a beatitude cristã, recomendou  que as pessoas deviam alcançar o que conceituou como circuncisão de coração.

Voltando a Kant, o imperativo categórico está presente quando o ato praticado pelo homem tem origem no senso moral e no dever como princípio.

Para Kant, é importante que a conduta de quem exerce a ação tenha uma preocupação moral intrínseca, que independa de punição ou vantagem, de qualquer tipo de prejuízo ou lucro.

Imanuel Kant acreditava que a lei moral está dentro de todo homem, tão resplandecente e encantadora como o céu estrelado que ilumina as noites de inverno, muito embora não seja por todos contemplada ou acessada.

O mundo poiético e competitivo que esta geração herdou só conhece o uso da técnica para o alcance de fins, para o atendimento de necessidades casuísticas, anistiando amiúde meios imorais eventualmente empregados.

É incongruente que uma sociedade que toma e aceita pra si o modelo de felicidade que repousa na vitória obtida em uma competição de eficiências, venha a clamar por pureza e justiça.

O mundo, com sua galeria de valores como está estruturada, sempre irá tratar melhor um corrupto rico que um justo pobretão, e preferirá nas eleições dar a vitória àquele que pareça mais forte, bonito, elegante e eloquente.

Estamos no mundo dos imperativos hipotéticos.

Quanto mais clamamos pelo combate a corrupção e restauração da injustiça, mais vamos consolidando um mundo que é o terreno perfeito para corrupção e para injustiça, porquê o uso da técnica (poiético) visando o alcance da máxima eficiência, sem um sólido atracadouro moral, sempre vai redundar em corrupção e injustiça, que para serem praticadas a luz do meio dia, é preciso apenas outro tanto de técnica e eficiência, a tornarem invisíveis todos os cadáveres que vão sucumbindo a perversidade deste mundo  de tão poucas virtudes e grandes emulações.