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OIO
OPINIÃO

O LEGADO DE OLAVO DE CARVALHO

Por Lúcio Lacerda

29/01/2022 16h46Atualizado há 3 meses
Por: REDAÇÃO

Olavo não era um filósofo. Era um místico. É bem verdade que a filosofia e ocultismo estiveram caminhando juntos durante longo tempo, desde o Daemon de Sócrates até a mônada de Leibniz.

A filosofia sempre irá se deparar com o metafísico em algum momento, e isso é normal, desde que não se pretenda normatizar o sobrenatural, ou utiliza-lo como fonte e subsídio  primário  de axiomas.

Olavo de Carvalho, além de ter sido sacerdote sufista em uma tarica, quando usava o nome de SID MUHAMED, foi astrólogo, chegando oferecer curso particular de astrologia e a vender mapas astrais.

Entre os autores mais recorrentemente citados por Olavo de Carvalho estão René Guenon e Frithjof Schuon, ambos da chamada escola perenialista.

Escola Perenialista é composta por um grupo de pensadores dos séculos XX e XXI preocupados com o que eles consideram ser o fim das "formas tradicionais de conhecimento, tanto estéticas quanto espirituais, dentro da sociedade ocidental." Uma crença central desta escola é a existência de uma sabedoria perene.

De caráter esotérico, o perenialismo se opõe ao iluminismo e a modernidade.

Creio que seja desta escola esotérica que tanto influenciou Olavo de Carvalho é que venham certas ideias pré iluministas das quais o guru da extrema direita saiu em socorro publicamente, como o geocentrismo e o terraplanismo.

 Sob a inspiração do grimório de René Guenon, “O rei do mundo”, Olavo de Carvalho desenvolveu uma verdadeira escatologia política, de onde emergem revelações que previnem o povo de Deus de seus verdadeiros inimigos que são os comunistas, os muçulmanos e a elite globalista.

Os globalistas seriam alguns ricaços mundiais que teriam interesse em que o mundo fosse transformado em uma única ordem mundial, de caráter ditatorial e socialista.

Quanto ao problema dessa assertiva, que é encontrar motivos para que capitalistas bem-sucedidos queiram um mundo socialista Olavo se defende dizendo que estes não seriam simples capitalistas, mas meta capitalistas que estariam sempre acima de qualquer regime ou estado, de modo que não seriam estes molestados pelo regime que pretendem implantar no mundo.

Para Olavo de Carvalho esses grandes empresários seriam algo como emissários do próprio Satã, cuja missão seria fazer com que as pessoas escolhessem a nova ordem mundial, como produto do livre arbítrio.

Essa Nova Ordem Mundial consistiria em um modelo de dominação diabólico e alternativo  ao plano divino de salvação do homem, sendo seus principais aliados os comunistas e os muçulmanos.

Na visão do pai do globalismo, existe uma hegemonia absoluta da esquerda mundial que, tendo ocupado setores determinantes na formação da opinião pública, como o jornalismo, a educação e as artes,  pretende dolosamente, século após século, incutir nos corações e mentes dos incautos, ideologias que venham a favorecer a criação da tal nova ordem mundial, que terá a regência do anticristo. Essas ideologias seriam sobretudo as de gênero e direitos humanos.

Estas ideologias teriam como finalidade destruir a civilização greco romana e judaico cristã ocidental, atacando suas bases que estariam fundadas na família tradicional.

O plano, segundo o pseudo filósofo, seria criar, começando pela eurásia,  uma confederação internacional de países, de viés socialista e agnóstico, onde o islamismo seria engenhosamente implantado, como meio de dar uma alma ao comunismo.

Essa é a síntese do pensamento de Olavo de Carvalho.

Em posse dessas premissas é fácil entender as razões pelas quais os esquerdistas são considerados por ele como inimigos do estado, e do próprio Deus, bem como a agressividade de seu público alvo.

O olavismo considera tão verdadeira e importante essa escatologia, que presume que o mundo caminha para uma ditadura comunista universal, que aceita lançar mão de toda desonestidade intelectual para fazer prevalecer suas teses.

A mais eficiente delas é descreditar as fontes.  Se um olavista, ou olavete como são chamados pelo próprio Olavo de Carvalho, faz uma afirmação intolerável, e o interlocutor retruca que certo pensador, professor em uma célebre universidade diz o contrário, o discípulo logo dirá que as universidades brasileiras não ensinam nada e que citar um acadêmico não resolve a questão.

Se a ONU recomenda a vacinação, isso não é prova de que as vacinas salvam vidas, porque a ONU é comunista, e assim por diante.

 Olavo lecionando astrologia

Olavo de Carvalho lecionando Astrologia nos anos 80

DOMINIO CULTURAL ABSOLUTO DA ESQUERDA

 O movimento olavista e sua guerra cultural tem suas bases em uma suposta hegemonia cultural absoluta da esquerda, e este é o combustível ideológico para o combate diário contra a esquerda e o comunismo.

O ideólogo de direita,  tendo como fonte o ORVIL ( Livro compilado nos anos 80 por generais da reserva para fazer um contraponto a obra “ Brasil Nunca Mais”) concluiu que há uma hegemonia cultural absoluta das esquerdas, e que a única forma de evitar o apocalipse comunista é desmontando essa poderosa rede de influência dos comunistas sobre a cultura ocidental.

O olavismo crê, com todas as suas forças, as esquerdas possuem o absoluto domínio da cultura e da informação, e que o objetivo seria preparar a população para o advento da Nova Ordem Mundial e sua satânica regência.

Os judeus foram estigmatizados com pecha conspiracionista semelhante quando da publicação dos Protocolos dos Sábios de Sião, em que se atribuíam aos sionistas o domínio global de certos setores, como a imprensa, o papel e a moeda, para o fim de oprimir os cristãos.

Apesar de os Protocolos dos Sábios de Sião serem uma farsa comprovada, tendo sido considerada um plágio mal-acabado de Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu, de Maurice Joly, é mais factível, pela verossimilhança, quanto a certas áreas que os judeus dominavam, e ainda dominam, que a proposição de domínio absoluto proposta por Olavo de carvalho.

 

DOMÍNIO DE QUE?

João Cezar de Castro Rocha, autor do livro Guerra cultural e retórica do ódio: crônicas de um Brasil pós-político, alerta para o fato de que existe de fato uma hegemonia relativa da esquerda em alguns setores da sociedade, mas não há esse domínio nas coisas que realmente interessam a construção de uma engenharia social com os propósitos megalomaníacos como os que Olavo concebe.

Castro admite que existe uma preponderância de ideias de esquerda em setores acadêmicos nas áreas de humanidades, mas isso nem de longe significa um domínio cultural das proporções imaginadas pelo olavismo.

Os maiores investimentos do CAPES  E CNPQ por exemplo, se dirigem a áreas dominadas pela direita, como as ciências jurídicas e as exatas.

De fato, os cursos de direito no Brasil, a exceção daquele oferecido pela Escola Superior Dom Helder Câmara, onde me graduei, tem uma pegada hiper conservadora, e assim são os tribunais, assim são as agências de repressão.

Não é a toa que dos doutrinadores de referência do Brasil, apenas alguns poucos, como Celso Bandeira de Mello e Lenio Streck, estão no lado progressista da história, sendo a esmagadora maioria do produtores de conteúdo jurídico, conservadores de direita.

Quanto a acusação que Olavo faz a esquerda de dominar as artes, em caráter absoluto, tomemos um exemplo emprestado do João Cezar de Castro Rocha, e indaguemos quem são os cantores que mais fazem sucesso atualmente?

Não são os sertanejos? E a maioria dos cantores sertanejos são petistas ou bolsonaristas?

Naturalmente que se sairmos do Hit Parede para sondar as ideologias do pessoal da MPB pré constitucional  iremos constatar uma maioria progressista, mas que não surgiu de um laboratório da esquerda, mas de gente que foi forjada nos anos de chumbo e que usaram a arte para tomar lado. Mas isso não se traduz, obviamente, em hegemonia cultural absoluta da esquerda. Nem de longe.

 

CONCLUSÃO

 

Ora, se Olavo de Carvalho conseguiu convencer centenas de milhares de alunos, e grande parte da sociedade brasileira, sob um falso pressuposto de que a esquerda tem hegemonia absoluta nas artes e na educação superior, então ele não formou filósofos, mas produziu um encantamento.

Uma alquimia as avessas que, conquanto não transmude metal vil em outro mais nobre, produz o contrário, com sentimentos e crenças, dentro de um minucioso método que impõe o recesso da razão, para que se opere o milagre do ressentimento sem causa.

 Deixo para apreciação dos leitores um trecho do livro “O Jardim das Aflições” de Olavo de Carvalho, para que cada um chegue a suas próprias conclusões sobre os métodos de Olavo de Carvalho.

 

Com a descoberta da hipnose forçada, o uso conjugado da estimulação incoerente e das ab-reações repetidas abria os mais promissores horizontes aos manipuladores da mente. Para reduzir um homem a uma obediência canina, já não havia necessidade de discursos em alto-falantes, de gritos, ameaças ou tortura mental. Por um lado, bastava regular o fluxo de informações contraditórias para levar o sujeito ao desespero que o inclinava à mutação súbita de suas convicções; de outro lado, essas informações seriam tanto mais explosivas em seus efeitos quanto mais silenciosa e discreta fosse a sua penetração — de preferência, subliminar. Esta descoberta foi confirmada por muitas outras vias. O psicólogo Leon Festinger verificou que mesmo formas brandas e gradativas de estimulação contraditória podiam produzir uma dissonância cognitiva, geradora de neuroses e psicoses.[ 54 ] Um estudo conjugado da IBM e da Universidade de Stanford demonstrou que é possível produzir artificialmente um quadro paranóico em sujeitos normais, simplesmente submetendo-os a um fluxo de informações que os deixem num leve estado de alerta contra o risco de situações humilhantes.[ 55 ] Dois pesquisadores, Flo Conway e Jim Siegelman, descobriram que, no ambiente fechado e artificial das seitas pseudo-religiosas, os resultados descritos por Sargant podiam ser alcançados num prazo inacreditavelmente breve: em menos de uma semana, às vezes em dois ou três dias, o discípulo de Moon ou Rajneesh passava por uma mutação profunda de personalidade, que os técnicos chineses em lavagem cerebral levariam meses ou anos para produzir.[ 56 ] O segredo era o planejamento cuidadoso do fluxo de informações, calculado para paralisar a consciência por meio da estimulação contraditória. As conclusões dessas pesquisas podem ser ordenadas numa seqüência simples e contundente:

1. Pode-se mudar a personalidade e as convicções de um homem levando-o ao esgotamento resultante da estimulação contraditória (Pavlov).

2. Uma vez produzida uma descarga emocional por esses meios, a mesma reação pode ser repetida mediante estímulos cada vez mais fracos. A pessoa submetida a esse tratamento torna-se dócil, crédula e dependente (Sargant).

3. A estimulação contraditória pode ser produzida por meios subliminares, sem que a vítima se dê conta do que se passa (Bandler e Grinder).

 4. A técnica pode ser aplicada simultaneamente a todos os membros de uma coletividade, desde que se sintam cortados de suas raízes sociais e afetivas (Conway e Siegelman). Os resultados serão mais rápidos do que no indivíduo sozinho.

 5. O fator decisivo é o controle planejado do fluxo de informações, que pode ser realizado à distância (IBM). Não é preciso enfatizar as facilidades que, hoje em dia, a rede das telecomunicações e a informatização da sociedade oferecem para a aplicação dessa receita em escala nacional, continental ou planetária. Se ninguém ainda tentou, foi somente porque não quis, ou porque tropeçou em algum obstáculo acidental. Impedimento teórico, essencial, não há.”