OIO
LACERDA ADVOCACIA 2
POLÍTICA

COMPORTAMENTO DE BOLSONARO EM MOSCOU MARCA ABANDONO DE SUA MATRIZ IDEOLÓGICA

Por Lúcio Lacerda

16/02/2022 19h42Atualizado há 3 meses
Por: REDAÇÃO

Bolsonaro desceu do avião acenando sob som do Hino da Rússia, que é o mesmo hino da União Soviética, restabelecido por Vladimir Putin no ano 2000.

Na cerimônia de recepção de Chefe de Estado estrangeiro, Bolsonaro homenageou o soldado desconhecido, que com certeza era um soviético.

Sem bravatas, Bolsonaro cumpriu todas as regras sanitárias da Rússia, e até se submeteu a uma bateria de 5 exames, imposta pelo país anfitrião. Nem mesmo os chanceleres da França e da Alemanha aceitaram os invasivos procedimentos temendo e imaginando o que a Rússia não poderia fazer em posse de suas amostras biológicas.

O Bolsonaro bravateiro desapareceu e deu lugar a um líder não apenas comportado, como quase subserviente ao poderoso Putin, com quem pretendia tirar umas fotos para sua campanha a reeleição.

O mesmo presidente que iniciou sua campanha em 2018 dando continência para a bandeira dos EUA, agora se entrega aos encantos da Rússia, que apesar da perestróica, jamais desligou seu coração do socialismo real.

Lá, no Kremilin de Moscovo, Jair usou máscara, depois de ter arrancado a proteção de crianças aqui no Brasil, e de ter feito tudo o que podia para obrigar ministros da Saúde a desobrigar o seu uso.

Bolsonaro, que acredita que o socialismo é uma ameaça ao cristianismo e a família, disse que tem em comum com o ex KGB, justamente a valorização de Deus e da Família.

Quem te viu e quem te vê hein presidente?

Por incrível que pareça esses episódios de comportamento não são as maiores traições que Bolsonaro praticou contra seus eleitores em Moscou.

A pior traição está nas sutilezas do discurso.  Bolsonaro disse ser solidário a Rússia, o que certamente vem a significar pelo menos duas coisas ao mesmo tempo.

Uma é que se é solidário à Rússia , no atual contexto, não é à Ucrânia. E outra é que está disposto a se afastar dos esforços e interesses estadunidenses em política internacional.

Bem. Isso é uma reviravolta no bolsonarismo, que, como sabemos,  tem como ideólogo o falecido Olavo de Carvalho.

A rivalidade com a Rússia e a China está no cerne do bolsonarismo, é a sua alma.

Olavo de Carvalho sempre dizia que a Rússia continua comunista, e que existe um bloco Sino-Russo que persegue interesses em comum.

Essa rivalidade com a Rússia ficou evidente em um acalorado debate público que Olavo de Carvalho teve com o filósofo e sociólogo russo Aleksandr Dugin.

O guru do bolsonarismo sempre insistiu  no combate aos russos, chineses e muçulmanos, que segundo sua teoria, seriam os arquitetos da Nova Ordem Mundial, que pretende implantar uma nova forma de comunismo no mundo inteiro, e aderir a religião islâmica, acabando com o cristianismo.

Ao dizer que é solidário à Rússia, Bolsonaro se alinhou ao eixo Sino-Russo, e contrariou o viés anti eurásia da ideologia que o levou ao poder.

O presidente perdeu metade dos inimigos com os quais amedronta suas ovelhas e alimenta o culto pessoal a sua figura. A China não é mais um inimigo, nem o comunismo.  Até mesmo um ditador ex membro da KGB pode ser chamado de amigo.

Olavo se remexe no caixão. Ernesto Araújo, Eduardo Bananinha, Weintraub, Felipe Martins ( o robespirralho) e Ricardo Velez lutaram um combate em vão.

Eu opino que as fotos que Bolsonaro tirou ao lado de Putin em nada vão auxiliá-lo em sua campanha, já que a debandada do eleitor bolsonarista se deu muito mais por motivos associados a pandemia e a crise econômica, que por questões de institucionalidade  ou falta de protagonismo internacional. A rigor, o temperamento que transformou Bolsonaro em um pária internacional, foi o mesmo que inflamou suas turbas fanáticas levando-as a idolatria do presidente.

Ao contrário, acredito que Bolsonaro retorna da Rússia faltando um pedaço, incompleto em seu conjunto simbólico, e desconfiável, do ponto de vista da autenticidade de sua identidade pública.

Doravante, seus apoiadores mais radicais terão que esperar qualquer coisa de Bolsonaro, que provou que, ao sabor dos interesses que forem surgindo, pode tanto beijar as mãos do Papa Francisco, quanto dar um abraço em Lula. Acender uma vela para Jesus e outra para Baphomet.

Se Olavo estivesse vivo, morreria de desgosto.

Afinal os comunistas são iguais, mas só que uns são mais iguais que os outros.