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LACERDA ADVOCACIA 2
OPINIÃO

HILDON FIADOR DE MARCOS ROCHA - O PRINCIPE E O MENDIGO

Por Lúcio Lacerda

27/02/2022 12h57Atualizado há 3 meses
Por: REDAÇÃO

Na manhã do último sábado foi anunciada a aliança entre o prefeito de Porto Velho, Hildon Chaves, e o atual governador do Estado de Rondônia, Marcos Rocha, no esforço de reeleição deste último.

Marcos Rocha, até 2018, era um militar desconhecido no estado, embora tivesse assumido temporariamente alguns cargos de gestão, sem grande destaque ou relevância estadual.

Em 2018 era uma das lideranças do emergente Partido Social Liberal (PSL) em Rondônia e teve as condições de emplacar sua candidatura ao governo, inicialmente sem grandes chances de sair vencedor.

Logrou êxito em se habilitar para o segundo turno daquele pleito, embora com votação consideravelmente menor que a de Expedito Júnior.

No segundo turno, no auge da onda Bolsonaro, Marcos Rocha virou o jogo e foi eleito Governador do Estado de Rondônia com o dobro de votos de expedito Júnior.

 Conduziu o governo nos primeiros 2 anos com um viés completamente igrejeiro neopentecostal, sem apresentar grandes proposições, ou tangenciar os temas de grande interesse do Estado, limitando-se ao feijão com arroz da gestão do dia a dia de um despretensioso ente federativo dos confins do nortão brasileiro.

Se havia nesses dois primeiros anos uma pauta concentrada sobre a qual o governador pudesse se esposar de um patrimônio simbólico, esta era a pauta ideológica do Presidente Jair Bolsonaro, arcabouço sectário cuja adesão lhe rendeu o governo de Rondônia.

A aplicação concreta do ideário bolsonarista no âmbito da cultura rondoniense levou Rondônia às capas dos principais jornais do Brasil e do Mundo.

Sob influência de diretrizes do Presidente da República, o Governo Marcos Rocha proibiu dezenas de obras da literatura brasileira nas bibliotecas públicas do Estado.

Na verdade, o governo determinou que fossem recolhidos dezenas de livros das bibliotecas das escolas do estado, entre eles clássicos da literatura brasileira como "Macunaíma", "Agosto" e "Os Sertões", mas voltou atrás, diante do vexame internacional.

A alegação era de que as obras tinham “conteúdos inadequados às crianças e adolescentes”. O governo chegou a negar a existência do documento, mas depois passou a alegar que o secretário de educação não o assinou.

Sobrevindo a pandemia do Covid 19, o Estado continuou a desenvolver políticas públicas como se fosse uma franchising do governo federal, em tudo seguindo o esquema do lay out ideológico do presidente.

Apelos religiosos e distribuição de Kits de tratamento precoce marcaram o enfrentamento da pandemia aqui por essas bandas.

As medidas de prevenção a Covid 19 mudavam a cada conjunto de algumas semanas, ora restringindo o funcionamento de certos estabelecimentos, ora permitindo multidões aglomeradas em algumas atividades, inclusive festas familiares e eventos de gala,  quase sempre protegendo o interesse de igrejas de forma diferenciada em relação a outros setores.

Ao final de 2021, Rondônia era a entidade federada com mais mortes de Covid 19 por 100 mil habitantes, liderando o ranking não apenas no Brasil, mas em todo o planeta.

Desde o penúltimo ano de governo, Marcos Rocha passou a, ao mesmo tempo em que implementava a fórmula bolsonarista no enfrentamento da Covid 19, segundo o script federal, a dar o ar da graça pelas cidades de interior do estado, atendendo pontualmente certas demandas municipais que pudessem lhe dar um lugar de fala e aparição. Era o governo on demand. Não tinha planejamento, projeto ou pauta, mas se propunha a atuar na emergência do caso a caso.

Neste momento, o governador começou a tecer a sua rede de apoios no interior já visando as eleições. Acariciou algumas vezes os servidores públicos do Estado e fez gravitar em torno de si uma legião de atores políticos e do serviço público, mesmo que não tenha sido bem-sucedido em estabelecer uma conexão direta com o povo.

Conquanto Marcos Rocha não tivesse sido bem-sucedido em criar esta conexão com o público, ele sabia que poderia obter a preferência do eleitor pela via do endosso das lideranças que houvera cooptado até então. O povo não precisaria lhe amar. Bastaria que as lideranças políticas nas diversas regiões do Estado colocassem suas máquinas e militância a serviço de sua campanha quando chegasse a hora.

O plano parece ter se concretizado no interior do estado. Mas ainda havia um problema. A baixa aprovação do governo na capital e a fragilidade das costuras políticas no maior celeiro partidário do Estado e de onde saem a maioria dos votos nas eleições gerais. A cidade de Porto Velho.

É ai que entra Hildon Chaves.

Em apertadíssima síntese, Hildon Chaves foi promotor de justiça e fez carreira no Ministério Público do Estado de Rondônia por mais de 20 anos, e, durante os últimos anos como Membro do MP, fundou, juntamente com sua esposa, dona Ieda Chaves, uma instituição de ensino superior que cresceu e se consolidou com uma das principais do estado, levando-o a uma prosperidade impensável para os padrões de  vida de um membro do Ministério Público, razão pela qual possivelmente decidiu abandonar a carreira.

Com o slogan “Deixa eu cuidar de você”, foi eleito prefeito da capital em 2016 e com a gestão referendada pela população em 2020, foi reeleito para continuar cuidando de Porto Velho por mais 4 anos.

Em algum momento do exercício de seus mandatos, Hildon, que renuncia todos os meses os valores de seu subsídio de prefeito, entregando-o a administração de sua esposa, dona Ieda Chaves, para filantropia, decidiu, junto com sua sócia e esposa,  vender a empresa de educação que possuíam, por valores que ultrapassam a casa da centena de milhões de reais.

As vésperas das eleições de 2022 Hildon é cogitado como um quadro extremamente promissor para o governo do Estado de Rondônia.

Com um perfil austero, egresso de uma gloriosa instituição de combate ao crime e de  defesa da sociedade, com formação técnica e possuidor de uma riqueza de origem simpática ( atuação no mercado de ensino), Hildon, embora não tivesse andando pelo interior do estado, tinha potencial para postular a cadeira de governador, pois além de ser em tudo viável do ponto de vista do Marketing Eleitoral, tinha a elegibilidade testada e aprovada na capital.

Ao contrário de Hildon, Marcos Rocha não foi bem-sucedido em sua experiência administrativa, embora tenha sido na articulação de um grupo competitivo para a disputa da reeleição.

Rondônia, sob Marcos Rocha,  cresce por esforço autônomo do mercado investidor, sem incentivos ou planejamento do governo.

Não se tem um projeto nas áreas de turismo, indústria, abastecimento, mineração ou organização institucional.

Se um empresário quiser consultar no portal da ALE ou do executivo as leis de Rondônia, irá se deparar com arquivos digitalizados de PDF que não informam se a lei foi alterada, revogada ou substituída.

Os textos não estão compilados e atualizados ou consolidados.

Se um investidor quiser peticionar a Procuradoria do Estado para que o órgão se pronuncie sobre uma questão, pode ter que aguardar 2 ou 3 anos pela resposta, ou nunca poderá obtê-la.

Um professor da rede pública estadual de ensino pode demorar 7 anos para ter seu pedido de aposentadoria apreciado.

O Governo de Rondônia não trata de grandes questões, mas opera o varejo das coisas mais comezinhas, triviais, vis.

Ninguém há que se coloque diante do horizonte e que vislumbre um Estado, que tente extrair das convivências de múltiplas origens do povo de Rondônia uma cultura comum, que veja adiante.

Quando nos deparamos com alguém que pudesse incorporar esse espírito de vanguarda e compromisso, este decide endossar o vazio.

Este é Hildon Chaves.

Mark Twain é que deve saber responder porque algumas vezes o príncipe insiste em se tornar mendigo, mesmo sabendo que o indigente acabará por lhe tomar o lugar.