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LACERDA ADVOCACIA 2
OPINIÃO

LUCIO LACERDA - O HATER E A DOR DA VERDADE

Por Lúcio Lacerda

05/03/2022 05h58Atualizado há 2 meses
Por: REDAÇÃO

A verdade dói, diziam os antigos, ancestrais nossos.

Analisando essa afirmação de modo a procurar identificar de que maneira a “verdade” poderia causar alguma dor no ser humano, só podemos concluir que essa dor que ela causa, se é que causa, é uma dor moral, e não física, como a tortura.

Aliás, em resposta aos episódios de tortura ocorridos no Brasil durante a ditadura militar foi criada uma “Comissão da Verdade” a fim de apurar as denúncias da época.

Não era mais possível uma punição aos torturadores, no plano jurídico formal, mas entendia-se que a “verdade”, por si só, seria um tipo de restauração moral para a memória do torturado e punição “moral” para o torturador.

Sim, a verdade dói.

No tempo em que vivemos, chamado de “pós verdade”, muitos tentam de esquivar da verdade, sustentando que ela depende do ponto de vista, relativizando, assim sua força e potestade absoluta.

E eles tem certa razão.

A verdade ou a falsidade moral, se conformam dentro de um sistema moral em que as relações humanas se desdobram. Não se pode cravar uma verdade moral e impô-la a sociedades ou pessoas que não estão envolvidas na mesma trama moral.

Isto é dizer que, o que é moral para mim, é aquilo que coloco dentro de um sistema moral que estou disposto a seguir. Se não há uma só moral, também não há uma só verdade.

O problema então é quando uma pessoa tenta se apresentar a sociedade com um postulado moral que não pertence ao sistema que lhe orienta de fato, ocasião em que ocorre a hipocrisia contumaz.

A hipocrisia demanda uma quantidade infinita de mentiras para ser sustentada.

O que as pessoas dizem sobre mim, a fim de estabelecer uma valoração moral de meus atos, só pode ser falso ou verdadeiro, e sendo assim, o que for falso não merece reação, e o que for verdadeiro nada há que ser feito, senão a admissão e a dor solitária do reconhecimento, se isso por acaso for incomodo.

Cada um sabe, diria Caetano, a dor e a delícia de ser o que é.

- “Você é um fumante, e isso é imoral sob vários aspectos”, me dirão alguns. Eu direi, no impulso de defesa, que sob o meu ponto de vista isto é um exercício do direito de opção e consequência, mas não poderia negar que a verdade é que esse hábito não é necessariamente um exercício de escolha, mas um vício com diversos fatores externos determinantes que não passam pelo juízo de deliberação consciente.

Uma coisa simples, como fumar ou não fumar, tem uma dimensão moral.

Toda posição política, religiosa, argumentativa e valoração sociológica dos costumes tem um conteúdo moral que é a sua substância fundamental.

Nos debates que ocorrem nas redes sociais há muitas proposições e pouquíssima reflexão. Todo mundo se acha, além de detentor exclusivo da verdade, portador das melhores intenções e titular dos mais elevados propósitos. Bom senso, se levarmos em conta as afirmações de internet, é a coisa mais bem distribuída no universo.

Eu não me deixo enganar por frases ou assertivas prontas. Sempre que leio ou ouço, tento, como faz a maioria dos doidos úteis, desvelar qual é a verdade por trás das afirmações.

Frequentemente, para fazer isso, é necessário promover uma exposição cruel do interlocutor. Não por maldade, mas por causalidade.

Se o que está por trás de uma afirmação é a hipocrisia, ou o arranjo psicológico que o indivíduo faz inconscientemente para esquivar-se de admitir sua emulação e fingimento, essa é a moeda argumentativa com a qual vou bancar o debate, e isso será inevitável.

Todos temos defeitos. Alguns menos fundamentais que outros. Mas todos temos.

Ver nossos defeitos expostos nunca é agradável, mas sempre pode ser educador, se os reconhecermos, tanto para mantê-los, se constitutivos da personalidade essencial, quanto para corrigirmos, se isso for possível e desejável.

Eu sou sempre acusado de ser um hater pouco delicado, mas não estou atrás de humilhar pessoas, embora isso seja colateral muitas vezes,  mas de desconstruir certas ideias que considero ruins para o desenvolvimento das potencialidades das pessoas.

De todas as ideias que são ruins para o desenvolvimento da personalidade e das potencialidades do indivíduo está a ideia do esconder-se de si mesmo.

A maioria dos debates da internet é sobre isso, ainda  que poucos percebam. 

E é nisso que eu atuo. Mostrando você a si mesmo, e me tornando consciente de mim a medida em que faço isso.

"Oh homem, conhece-te a ti mesmo", enunciava os portais do Oráculo de Delfos.

A afetação moral, que se expressa na forma de dor, quando ouvimos algo que não gostamos, é só a exata diferença entre o que dizemos que somos e o que somos efetivamente.

A verdade é inescondível, e o que a gente é, fala tão alto, que as vezes não é possível ouvir o que estamos dizendo.

É a hipocrisia o elemento mais bem distribuído do mundo. Não o bom senso ou a virtude.

Eu conheço e lido, bem ou mal,  com as qualidades e características destrutivas e construtivas que sei que possuo. E você?

Bem-aventurado aquele que não tropeça naquilo que concorda, diria São Paulo.

Paz e bem.