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OPINIÃO

BOLSONARO, NAPOLEÃO E OS RUSSOS

por Lúcio Lacerda

08/05/2022 10h49
Por: REDAÇÃO

Napoleão tinha em 1812 um exército de mais de 600 mil homens, de várias nacionalidades, sendo que 550 mil deles, avançaram em uma campanha pela conquista da Rússia.

Um general genial como Napoleão, com certeza não ignorava o clima e a topografia russa, mas provavelmente não contava com a tática da terra arrasada, usada pelos russos,  que consistia em incendiar as cidades antes da passagem do exército inimigo para que este não pudesse obter suprimentos para suas tropas.

Com este nada desprezível revés logístico, Napoleão decidiu marchar diretamente para Moscou, que certamente não seria destruída, por seu valor simbólico de capital, ainda que sucedida como central do poder político por São Petesburgo no último século.

Quando Napoleão entrou em Moscou não encontrou nenhuma resistência, a cidade estava às moscas, e quando decidiu adentrar no Kremlin, um grande incêndio de múltiplas origens começou a devorar as edificações da cidade que eram predominantemente de madeira naquela época.

O General corso estava diante de mais uma cidade arrasada, com um palácio para reinar, mas sem súditos em quem mandar. Só ele e seu exército faminto no meio de uma cidade consumida pelo fogo.

Napoleão, com pouco para alimentar suas tropas foi obrigado a recuar enquanto sofria os efeitos da transição do outono para o rigorosíssimo inverno russo, e ia perdendo homens por toda parte, por fome, congelamento e bala.

Debaixo de um frio de 40º graus negativos Napoleão descobre um inimigo jamais considerado em suas ponderações de guerra. Os botões dos casacos dos soldados franceses.

Os fechos e botões da indumentária militar francesa eram feitos de estanho, mineral que quando exposto a temperaturas muito baixas entra em decomposição e se dissolve.

Os soldados franceses não tinham como proteger os seus corpos do frio e segurar uma arma ao mesmo tempo porque suas fardas não tinham mais botões, e essa situação em particular teria sido das principais responsáveis pela perda de quase 500 mil soldados na campanha contra a Rússia.

Dos mais de 550 mil que foram combater os eslavos, apenas 27 mil homens retornaram a Paris, exaustos, famintos e perplexos.

Acabou Napoleão.

Em Moscou Napoleão se deparou com algo que nunca havia imaginado. Uma cidade vazia, sem gente para se render ou obedecer.

Napoleão precisava que o Czar Alexandre I cooperasse com o bloqueio ao Reino Unido, eliminando a possibilidade de uma invasão russa à Polônia.

Parece que o Imperador Frances confundiu, por um momento, a distinção que há entre império e domínio.

Império é poder sobre território, domínio é poder sobre pessoas. Não se avança por territórios se o interesse é influenciar ou dissuadir pessoas, a menos é claro, que a conquista do território por si, signifique demover alguém de certa posição indesejável.

Disse Tolstoi sobre a guerra: “A Grande Armée tinha muitos soldados, e podia perde-los, e a Rússia tinha muito território, e podia recuar”.

Mais feliz foi a invasão francesa de Portugal que, apesar de também não encontrar uma monarquia a quem subjugar, pois que vieram para o Brasil antes da invasão, ao menos conseguiram atingir, ainda que temporariamente, o propósito que motivou a invasão, que era fechar os portos lusitanos para as embarcações britânicas.

Mais de 200 anos depois desse episódio, temos aqui, na terra que sediou o Reino de Portugal e Algarve ao tempo do império napoleônico, também o nosso Napoleão de Hospício, que muito poderia aprender com esse episódio.

O nosso Napoleão, dado que é de hospício, não pretende expandir sua influência ou poder de império sobre nações estrangeiras, mas pelos próprios poderes da república, invadindo e conquistando as demais funções de Estado.

Com o objetivo de controlar as vontades dos outros poderes do Estado, nosso Napoleão entrega sua principal função executiva, que é a execução do orçamento, ao Poder Legislativo, ao passo em que pretendendo controlar o Poder Judiciário o transforma em terra arrasada, subtraindo-lhe autoridade e prestígio.

O inverno se aproxima e o nosso Napoleão de hospício ainda não sabe o que essa queda da temperatura, nos corações do povo que ele mesmo ajudou a dividir, vai causar aos botões de estanho que até então conectavam o tecido social, como agasalho afetivo e indentitário que unia todos os brasileiros.

Nosso corso quer controlar vontades, cedendo e invadindo territórios, enquanto que na verdade, bastaria que tivesse a capacidade de ser influente para que tudo lhe corresse bem, mas em vez disso, prefere o enfrentamento das vontades alheias, e inclusive da vontade das urnas, contra as quais já prepara um ataque, caso a vontade nacional não coincida com a sua.

Esse nosso Napoleão, se fosse o Imperador da França no início do século XIX, teria ateado fogo a Paris e ido espontaneamente se exilar na Ilha de Santa Helena.

Napoleão, o Bonaparte, se viu destronado após a derrota para Rússia, uma vez que esta feriu mortalmente a sua reputação e estimulou a formação da 6ª coligação de países rebeldes a autoridade francesa, pavimentando o caminho que o levaria a derrota definitiva de Waterloo.

A caneta do Biroliro, como a reputação de Napoleão depois da derrota para Rússia, está com pouca autoridade, e não é de duvidar que o centrão e todo o congresso nacional se coligue com os russos, quando ficar clarividente que Bolsonaro não tem os meios de ganhar nem a briga com o Supremo, nem as eleições.

Parafraseando Tolstoi ao contexto brasileiro: “ O bolsonarismo tem muitos soldados, e pode perde-los, o Supremo tem muitas atribuições e pode recuar sem perder o controle da situação”.

Waterloo, em tradução livre significa brejo, e brejo é um lugar perigoso e inóspito  para o gado.