CHEGOU 2021

POSSE DO PREFEITO FÚRIA PÕE FIM A TRANSIÇÃO QUASE HOSTIL

SOLENIDADE ACONTECEU NO PLENÁRIO DA CÂMARA MUNICIPAL DE CACOAL

01/01/2021 15h18Atualizado há 5 meses
Por: REDAÇÃO

Por Lúcio Lacerda

 

Era uma vez, numa cidade muito, muito distante, um ano novo que se descortinava.

O ano de 2021 chegou e a cerimônia de posse do Prefeito Eleito Adailton Fúria põe fim ao tenso processo de transição que a meu ver foi “quase hostil”.

Apesar de terem existido duas comissões de transição, uma formada por membros da administração governista e outra por membros do governo eleito, presididas por Fabiano Amorim e Cassio Gois, respectivamente, não era raro assistir pessoas cotadas para cargo de secretariado no governo Fúria, se dirigirem diretamente a  sedes das secretarias, ou órgãos de sua estrutura, e procederem certo expediente de “auditoria”, por conta própria, as vezes lançando mão de insinuações  que colocavam em dúvida o trabalho dos que até então gerenciavam as pastas do município.

Um pouco antes, logo que foi eleito, Adailton Fúria, deu entrevistas a canais de TV, tanto convencionais quanto via internet, em que colocava em dúvida, ainda que indiretamente, os gestores daquela administração municipal, chegando a sugerir que poderiam faltar maquinas e veículos da frota municipal, e que ele iria tudo auditar, e que  portanto,  não adiantaria “esconder” partes da frota do município.

Durante a transição foi feito inventário da frota municipal e pelo que se apurou não há veículos ou máquinas faltantes, e antes e pelo contrário há mais veículos agora do que haviam quando o prefeito eleito deu a noticiada entrevista a denunciar que a prefeitura era administrada por ladrões de carros.

Por ocasião da diplomação do Prefeito Eleito Adaílton Fúria, concretização de sua enorme legitimidade eleitoral com a mais expressiva votação registrada no município, fez uso da palavra para recordar da sua honradez e da desonestidade de todos os  gestores anteriores.

Semana passada o Prefeito Eleito adentrou no Palácio do Café e chamou toda imprensa local para quem concedeu entrevista coletiva, aos altos brados, acusando a Prefeita em Exercício Maria Simões de estar com maracutaia com a Energisa em razão de ter supostamente assinado um contrato de negociação de débitos judiciais do município para com a companhia energética. Nesta ocasião o prefeito eleito disse que a transição não era transparente e que ele iria auditar tudo.

Hoje, na cerimônia de posse do prefeito eleito e dos vereadores, Adailton Fúria discursou por poucos minutos, um dos quais dedicou às vítimas da Covid 19, e lembrou as dificuldades de sua trajetória política, com especial ênfase na sua amarga derrota no pleito anterior, e salvo melhor juízo, demonstrou certo ressentimento com certas pessoas que o discriminaram, sem o conhecer, quando conquistou seu primeiro mandato eletivo para o cargo de vereador.

Este texto não tem o objetivo de criticar o prefeito eleito e nem de entrar no mérito das questões que parecem mover o espírito e a vontade do jovem alcaide, mas de tentar identificar qual o significado destas questões quando inspiram e orientam as linhas de ação que o prefeito precisará adotar assim que se sentar na cadeira.

Neste ponto, creio, se o mote do governo for empreender em um esforço para amiúde provar que a gestão anterior era ineficiente e desonesta e que um mundo de luz está a se descortinar com sua ascensão ao cargo de prefeito, receio que pode não conseguir nem obscurecer os seus antecessores, nem iluminar os seus próprios caminhos.

Eu não sei se tem alguma coisa errada em algum departamento ou secretaria da prefeitura, até porque se eu vir algo errado acontecendo do meu lado da rua, atravesso imediatamente  para a outra calçada, mas tenho certeza que tem muita coisa certa acontecendo na prefeitura, e que a maioria dos gestores auxiliares da administração anterior  são pessoas idôneas e competentes.

Como nada é absoluto e o exercício do poder é sempre fluído, pode-se encontrar isoladamente indivíduos se portando inconvenientemente no exercício de cargo público, e uma caça às bruxas, na forma de minuciosas auditorias, certamente poderia expor alguns desses casos.

Todavia, o passado tem seus limites porque já está escrito, e não pode ser modificado. Os acontecimentos do passados estão enclausurados no mundo dos fatos consumados, e embora se possa tentar re-significa-los, não será possível muda-los, daí que o acervo de uma política que se faz olhando para trás tende a se esgotar com certa facilidade, ao passo em que o presente tem suas próprias exigências, e o futuro, ao contrário do passado, tem múltiplas probabilidades, encerrando em si tanto o destino quanto a fatalidade, a depender do caminho que se trilha.

O passado é picada aberta, o futuro é como um broto que se expandirá em ramo, com numerosos braços que se abrem em direções opostas, e quiçá terminem em flores ou frutos.

O broto não sabe qual parte do sistema caulinar da vegetação em expansão irá florescer ou frutificar, mas nele deve estar  a água, a força e a nutrição para o crescimento da planta.

O passado não tem múltiplas probabilidades como o futuro.

Ninguém vive de passado e o futuro exige atenção.

Ingressamos em 2021 em plena calamidade sanitária com nefastos reflexos econômicos, desemprego, aumento da criminalidade, perda de arrecadação. É um mundo em crise clamando por homens capacitados para a vida pública.

Particularizando para o âmbito local esses problemas, podemos começar a pensar sobre o que fazer para assegurar as sessões de hemodiálise para uma centena de pacientes que sem este tratamento morrerão, considerando que não é mais possível renovar o contrato com a atual empresa que presta esse serviço.

O que faremos? Tomaremos a execução do serviço por meio de requisição administrativa? Há liderança política com capacidade de articular um consorcio intermunicipal para a gestão do tratamento de hemodiálise? Ou ficaremos auditando nossos adversários enquanto as pessoas morrem, de câncer, bala, vício e Covid?

E a arrecadação, dá pra melhorar sem criar novos tributos, mas tornando mais eficiente o sistema de lançamento e recolhimento?  E a mobilidade urbana, o plano diretor, a informatização da burocracia pública?

E a pandemia? O governo municipal pode fazer algo para planejar uma saída segura do atual quadro de expansão infecciosa? Ou isso é só com governador e presidente.

Essas perguntas representam uma pequena amostragem dos temas com os quais terá que lidar o atual prefeito, e que poderiam ter sido objeto de menção em seus discursos que parecem trazer, invariavelmente conteúdo subjetivo, pessoal, de caráter emocional, com notas de ressentimento e revanchismo, ao que me parece.

Nada em seus discursos são da alçada pública. É sempre o meu adversário, a minha trajetória, a minha vitória ou derrota, a minha honestidade e a desonestidade dos outros.

Este tipo de pensar e sentir o mundo, me lembra a advertência de um dos personagens de uma franquia de ficção do George Lucas chamado “Mestre Yoda”, que ao entrevistar um jovem superdotado nos poderes da “força”, para decidir se o aceitaria ou não como discípulo assim disse:

“ O medo em você eu vejo

e não posso admitir que ao lado escuro da força

sejas conduzido pelo medo que tens”.

 

O garoto  entrevistado pelo mestre Jedi da famosa franquia de cinema Guerra nas Estrelas era Anakim SkyWalker e  viria a se tornar Dart Vader, o maior e mais temível vilão da saga Star Wars.

No mundo real a moral da história é que todas as fragilidades do afeto decorrem do medo e da insegurança, que geram ressentimento, e como sabemos, a mágoa é péssima conselheira.

Não desejo sorte ao prefeito eleito porque isso não existe. Desejo que ele faça as melhores escolhas.

Fúria, que a força esteja com você.